Tonhão, bravo guerreiro dos campos de várzea, certo dia acordou de mau humor. Olhou para a esposa, filhos, e imaginou como seria dar um carrinho por trás naquela rotina sufocante que lhe apetecia. Tomou café em silêncio, organizou seus pertences, preparou a marmita e se lançou em mais uma sexta-feira de trabalho na única oficina mecânica da provinciana Ibipitanga, interior da Bahia. Aquele dia, contudo, seria especial para o voluntarioso camisa 5, titular incontestável do Cavalo Manco Futebol Clube¹. Às 16 horas, seu time entraria em campo para o embate decisivo contra o Esporte Clube Filhos de Jacira, na final do campeonato amador mais obscuro do futebol brasileiro.
Antes disso, convém detalhar brevemente a trajetória heroica do Cavalo Manco na competição – a mesma que, na década de 60, revelou um dos maiores jogadores que este país já viu, o zagueiro Percival. Com uma campanha apenas razoável na fase de grupos (uma vitória por 2 a 1 e três empates sem gols), o time precisou galopar muito para garantir a classificação, que só veio na repescagem da chave. Depois de mais um empate em 0 a 0, dessa vez com os galácticos do Menino Mambembe FC, a vaga foi decidida nos pênaltis.
Na ocasião, brilhou a estrela do goleiro Lindomar, que defendeu a quinta penalidade do adversário. Tonhão, encarregado da última cobrança, soltou uma bomba no meio do gol e levou ao delírio pouco mais de 27 torcedores presentes no Carecão de Ibipitanga. Nas oitavas-de-final, mais dois empates e decisão nos pênaltis novamente. Lindomar defendeu outras duas cobranças e caiu definitivamente nas graças da torcida – o ágil goleiro foi tão festejado que acabou faturando um ano de almoço grátis no Boteco do Jorginho. Na fase seguinte, os cavaleiros eliminaram uma das equipes favoritas ao título, o Acarachelsea, com dois triunfos pela contagem mínima.
A semifinal foi uma verdadeira batalha campal – em dois jogos, o árbitro expulsou oito jogadores e aplicou 26 cartões amarelos –, com destaque para o primeiro duelo entre Cavalo Manco e Grêmio Precário, encerrado precocemente em função do número insuficiente de jogadores em campo. No jogo da volta, o glorioso Tonhão fez um gol de carrinho aos 48 minutos do segundo tempo e garantiu a vaga na final.
Inveterado e macunaímico, Antônio Dias da Silva, 29 anos, torcedor fervoroso do Bahia, fazia da bola (e da cachaça) a sua válvula de escape. Seu humor não era dos mais horizontais, o que gerava discussões, brigas e, em alguns casos mais extremos, tentativas de homicídio. Certa vez chegou a ser investigado pelo delegado da cidade, Garcia, sob acusação de jogar uma cobra venenosa no quintal do vizinho que lhe roubava galinhas. Ele negou, mas toda a cidade de Ibipitanga sabe que ele só se livrou da cadeia depois de solucionar gratuitamente alguns problemas hidráulicos na Caravan 1976 do delegado Garcia.
Se não podia acabar com a raça do vizinho que lhe roubava galinhas ou mesmo da própria esposa, Geralda, 112 quilos de pura maledicência, alguém tinha que pagar o pato. A habilidade para causar hematomas nas canelas alheiras era notável, não à toa ganhou a faixa de capitão. Muitos reclamavam, alguns chegavam a encarar, mas ninguém tinha coragem de chamar Tonhão para a briga. Questionado pelos colegas sobre suas características de jogo, ele costumava a dizer: "(...) sou um volante de contenção, tenho orgulho desse título. Faço o meu trabalho, ainda que para isso seja necessário levantar um ou outro adversário".
Tonhão nunca chegou a fazer testes para se tornar um jogador profissional e essa talvez seja a maior frustração de sua vida. A guerra começou cedo para ele, que já foi vendedor de batatas, auxiliar de cutelaria, office-boy, vendedor de sorvete, pedreiro e figurante funerário (no interior da Bahia, é motivo de humilhação para a família do morto se o enterro não tiver um número razoável de pessoas). Nos intervalos de sua inóspita trajetória, os campos de terra batida proporcionavam aquele conceito de Felicidade com "f" maiúsculo, do filósofo Gilles Lipovetsky: para o jogador, mirar alguma parte do corpo do adversário (não importa qual) e projetar a pancada, desconstruindo a lógica do futebol-arte em movimentos previamente calculados.
E depois de cerca de dez anos tentando levar o Cavalo Manco à decisão do campeonato de futebol amador do interior baiano, Tonhão enfim experimentava a sensação do triunfo. Para o combativo capitão da equipe do bairro Cavalinhos, o protetor da zaga, por vezes chamado de carregador de piano, o êxtase daquela tarde cristalizava um fluxo de adrenalina que, em campo, certamente se traduziria em carrinhos e botinadas. Na entrada para o Carecão de Ibipitanga – campo no qual a areia está em primeiro plano, colorido pelo volume extremamente discreto de grama crescente no entorno das quatro linhas –, com a obsessão ornamentando o olhar, memorizou a feição das canelas de pelo menos cinco dos 11 jogadores adversários.
O primeiro tempo foi levado em tom wagneriano, com falsetes abafados para ambos os lados. Taticamente, Tonhão teve um grande desempenho: atuou basicamente na cobertura dos laterais, já que o Cavalo Manco, para surpresa de sua própria torcida, adotou uma postura ofensiva e pressionou o adversário. Mas o camisa 5, claro, não poderia findar os 45 minutos iniciais sem receber um cartão amarelo, aplicado pelo árbitro Celestino Hora depois de uma cotovelada no endiabrado Zequinha, o camisa 10 do Filhos de Jacira.
Na primeira metade da etapa complementar, prevaleceu o equilíbrio entre Cavalo Manco e Filhos de Jacira. O segundo, que jogava com a tradicional linha de quatro jogadores no meio-de-campo, tinha mais posse de bola, porém carecia de objetividade – muitos passes laterais e poucas jogadas de ataque. Na reta final do confronto, o clima esquentou em todos os sentidos.
Aos 32 minutos, um torcedor invadiu o campo e precisou ser retirada a base de safanões e pontapés pelos próprios jogadores. Passado o entrevero, o Filhos de Jacira se aproveitou de uma falha da defesa adversária para abrir o placar: Zequinha chegou à linha de fundo pela esquerda e cruzou na medida para Valdomiro, que arrematou de primeira e acertou o ângulo do goleiro Lindomar. A autopunição de Tonhão, que chegou atrasado para fazer a cobertura, era certamente imensurável. A eminência do fracasso estava estampada em seu rosto.
Cinco minutos antes do último apito, a descarga de adrenalina combinada à frustração foi demais para o valente capitão do Cavalo Manco. Ao ver o jovem peralta da camisa 10 (como Tonhão costumava dizer aos amigos, “lá vem a saltitante foca adestrada”) arrancando em direção à meta do goleiro Lindomar, não pensou duas vezes: mirou no ligamento talofibular do tornozelo esquerdo e se lançou ao front, desferindo um golpe cirúrgico, cuja precisão não poderia ser aferida nem pelo mais experiente mestre da Grande Arte do Percor.
Celestino Hora também não titubeou. Pela terceira vez na competição, tirou o cartão vermelho (na verdade, um recorte de cartolina) do bolso lateral da bermuda jeans e o mostrou para Tonhão, que, apesar das controvérsias, acatava todas as decisões do juiz e praticamente não reclamava durante as partidas. Deixou, pois então, o Carecão do Ibipitanga com um sorriso no rosto, já que uma estranha sensação de completude lhe roubara de sobressalto. Após o jogo, mesmo com a derrota, o tradicional churrasco dos cavaleiros registrou bom público. E há quem diga que Tonhão, em determinado momento daquela dialética de mesa de bar, bradou para quem desejasse ouvir: “Sim, perdemos o jogo. Mas a comemoração da foca adestrada será no hospital”.
¹ O Cavalo Manco Futebol Clube é o segundo clube amador mais popular do interior da Bahia, atrás apenas do Acarachelsea. A agremiação surgiu no bairro de Cavalinhos, zona sul de Ibipitanga, e manda suas partidas no Carecão de Ibipitanga, que pertence à Associação de Moradores de Cavalinhos.Marcadores: futebol de várzea, futebol-força |