Marcel Duchamp não poderia ser biografado de melhor maneira senão com a poética genial do brasileiro Augusto de Campos, em parceria com o ilustrador Julio Plaza. "Reduchamp" (Annablume, 68 páginas) chega às livrarias para resgatar a vida e a obra de um dos ícones da arte no século XX, cujo legado se divide entre o período conceitual na Europa e o experimentalismo dadaísta na América. Pintor, escultor, enxadrista, poeta e, principalmente, boêmio de corpo e alma; Duchamp teve várias representações e fez de si mesmo um dos grandes personagens (usou pseudônimos como "R. Mutt" e "Madame Rrose Sélavy") da cena nova-iorquina na década de 20.
Não me lembro de ter testemunhado menções a Duchamp na época de faculdade, mas muito se falava (e ainda se fala) do conceito ready made. Uma arte crua, puramente irônica, que transporta elementos banais (ou não) do nosso cotidiano para um cenário conceitual, atribuindo-lhes valor artístico. Trata-se de uma estratégia no sentido de revolucionar a composição da realidade visível; o que estava em jogo era a ideia, o fazer artístico, independentemente da sombra das convenções.
Exemplo clássico do ready made é a utilização de uma simples privada, batizada "A Fonte" (veja na foto ao lado), que leva a assinatura de um dos seus pseudônimos, "R. Mutt". Ainda que tenha sido rejeitada em um primeiro momento, a repercussão foi global. Muitos quebraram a cabeça para entender a razão pela qual Duchamp fez de um mictório sua obra de arte mais conhecida, sem qualquer modificação em relação à forma do objeto. Essa era, pois, a principal contribuição do ready made. Tornar a arte cerebral.
Em "Reduchamp", Augusto de Campos - um dos precursores da poesia concretista - analisa o trabalho conceitual e revolucionário do artista francês, além de relatar sua vida de boemia, despojamento, sempre em grau máximo de sincronia criativa. Qualquer coisa, por mais banal que fosse, poderia virar arte nas mãos de Duchamp. Portanto, nada mais coerente que a trajetória do artista seja narrada através de um poema-ensaio.
O ENIGMA DUCHAMP. Enquanto pintor, Duchamp destacou-se por uma espécie de "deboche" quanto ao cubismo. De fato, se olhamos para “Nu descendo a escada”, é possível observar a característica sequencial da imagem (veja na foto ao lado), que aparenta estar em movimento; ligeiro, porém real. O mesmo ocorre em "Rei e Rainha rodeados por rápidos nus" e "A Noiva". A mudança para os Estados Unidos (tornou-se cidadão americano em 1955) impulsionou a carreira de escultor e a inspiração dadaísta. Sua grande obra - "O Grande Vidro" - levou anos para ser elaborada e até hoje suscita debates acerca de suas motivações.
Segundo Octavio Paz, autor do livro "Marcel Duchamp ou o Castelo da Pureza", a trabalhosa arte (também chamada "A noiva desnudada por seus solteiros, mesmo") "é um enigma e, como todos os enigmas, não é algo que se contempla mas sim que se decifra". Ela é composta por dois painéis de vidro emoldurados com alumínio; na parte superior, uma figura abstrata correspondente à imagem da Noiva; no lado inverso, os solteiros vagabundos representados por meio de uma técnica experimentalista, que inclui cabides e destroços de um moinho de café. Veja na foto ao lado.
Foram quase dez anos de labuta no sentido de criar um novo mecanismo de expressão artística, cuja compreensão é muito mais do que subjetiva. Como pontua Octavio Paz, capta-se em "O Grande Vidro" um enigma a ser decifrado. O trabalho está em exposição até hoje no Museu da Filadélfia.
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