“Quando fico mais fraca, é que fico mais forte”, disse ela, no momento em que o garçom trouxera mais uma garrafa de Erdinger, pois a da mesa já estava vazia. Discutíamos a respeito da resistência alcoólica das pessoas em geral ou algo do tipo (sinceramente, não me recordo com exatidão).
“Eu me lembro dessa frase. Se não me engano, a escutei em algum desenho japonês do início dos anos 90”, respondi.
“Eu era uma grande fã desse seriado, cujo nome também não lembro. Mas o que é, de fato, relevante, é... (pausa) Como ela se encaixa perfeitamente nos meus momentos ébrios, nas minhas incursões noturnas pelos bares da cidade”, ela retrucou, riscando um desses fósforos de hotel para acender o seu Camel.
“Deixe-me entender. A embriaguez impulsiona uma força interior desconhecida por você na continuidade dos sentidos, isto é...”, interrompi o raciocínio, não chegaria a lugar algum. Digamos que fora apenas uma vã tentativa de compreendê-la, pois eu estava realmente disposto a dedicar toda e qualquer atenção a ela, compartilhar de todos os pormenores, mesmo que estes não fizessem sentido algum.
“Nessa vida ninguém foge porque tem medo. Pelo contrário, medrou quem fugiu”, ronronou ela.
“De certa forma, atrelar a sua força interior à ingestão de bebidas alcoólicas pode ser visto como um espécime de covardia, não acha?”, repliquei, olhando-a fixamente, sem que nenhum detalhe de seu corpo escapasse às minhas retinas.
"Se você é capaz de sorrir quando tudo deu errado, é porque já descobriu em quem por a culpa”, ela sussurrou baixinho, com o olhar preso ao copo, no momento em que uma névoa abandonara a sua boca.
“Então você afirma que todos os seres humanos são covardes? Que a angústia provocada pela falha, ou eventual omissão, surge naturalmente na medida em que convivemos com os nossos receios? Que a postura estática é, na verdade, a pobreza moral?”, questionei, ainda na tentativa de compreendê-la. Fosse outra e eu já teria me levantado para jogar caça-níquel ou, quem sabe, distribuir puladinhos e cruzados ao som da Orquestra Tabajara.
“Pobre é foda, meu querido. Sempre diz que não tem nada, mas quando chove diz que perdeu tudo”, replicou, apontando para um casal na mesa ao lado. “Veja-os. São casados, provavelmente. O matrimônio é a única instituição na qual se conquista a liberdade por mau comportamento“, completou.
“O casamento pode significar a ruptura no que diz respeito aos laços de liberdade, concordo, porém há quem considere tal instituição como projeto de vida propriamente dito. Há aquelas que anseiam maridos ricos ou financeiramente estáveis, médicos talvez. Outras, por sua vez, largam tudo para viajar pela América do Sul com um hippie argentino, cuja renda mensal não passa de míseros 150 reais mensais, obtida através da comercialização de óculos escuros em Copacabana, além de outras bugigangas e quinquilharias hippies produzidas entre um baseado e outro”, falei, antes de beber os três últimos dedos de Erdinger.
"Há duas palavras que abrem muitas portas: Puxe e Empurre”, respondeu, seca. Sua obsessão etílica já estava a bater à porta novamente.
“Clarifique o raciocínio, por favor”, eu disse.
Ela, porém, se calou. Por cinco ou seis segundos, a odiei por adotar um silêncio com viés de indiferença, como se aquele diálogo, aquele momento de interação quase existencial, jamais tivesse existido. Como se incinerar variadas experiências fosse algo fácil, automático, superficial. No entanto, é sabido por 99% dos meus amigos de mesa de bar: eu não seria capaz de nutrir ódio por ela. Não mesmo.
Ela se calou e... Assim permaneceu. Ela, a garrafa. Ali, na minha frente, refletindo de forma velada uma inquietude acerca do destino, exalando angústia por meio de poros insólitos. Um contraste entre o vigor intrínseco, potencialmente capaz de derrubar quaisquer indivíduos, e a fragilidade de sua embalagem, de sua máscara, de seu esconderijo. A resposta e a dúvida, ao mesmo tempo.Marcadores: boemia, conversa fiada, filosofia de botequim |