Muitos dos filmes que concorreram ao 66th Golden Globe Awards 2009 ainda são desconhecidos pelo público brasileiro. "Slumdog Millionaire"era um deles. Uma produção quase independente de Danny Boyle (o mesmo que dirigiu a adaptação de Trainspotting para as telas, sem que o filme ficasse pior do que o livro, o razoável Caiu do Céu e o pavoroso Sunshine: Alerta Solar) e que faturou quatro Globos de Ouro na noite do último domingo, em Los Angeles, incluindo os de Melhor Filme Dramático e Melhor Roteiro, e o de Melhor Diretor para Boyle.
O longa, que também venceu, no ano passado, o Cadillac People’s Choice, principal prêmio do Festival de Toronto, conta a história de Jamal Malik (Dev Patel), um jovem pobre de Mumbai, na Índia, que, apesar do analfabetismo, consegue chegar à final de um programa de televisão chamado "Who Wants to be a Millionaire?" (uma espécie de “Show do Milhão”). Desconfiada de que o rapaz teria trapaceado, a polícia indiana acaba o torturando e, assim, ele conta sua história de vida e revela o verdadeiro objetivo que o motivou a participar do programa: encontrar a garota pelo qual é apaixonado, Latika (Freida Pinto).
Slumdog Millionaire, porém, vai além do romance e do drama. Muito possivelmente, a co-produção entre Inglaterra e Índia se transformou no primeiro filme em escala internacional a explorar o universo de Bollywood, a multimilionária indústria do cinema indiano. E nesse contexto em que a ostentação, o luxo e a fantasia constrastam com os desajustes sociais e painéis de miserabilidade, uma história de amor se faz presente (antes de qualquer comparação, é bom deixar claro que não se trata de um clichê shakesperiano ou algo do tipo, pois o amor aparece na mesma proporção de qualquer outro signo icônico trabalhado pelo filme). A ideia é explorada com sensibilidade tanto na construção dos personagens como nas locações.
Em uma entrevista concedida à MTV, em julho de 2007, Danny Boyle definiu o seu novo trabalho da seguinte forma:
- A verdadeira razão pela qual ele vai ao programa é que ele perdeu contato com a garota que ele ama. Tudo que ele sabe é que ela assiste a esse programa religiosamente, então ele decide participar para tentar recuperá-la - disse o cineasta irlandês.
O roteiro se dá através de duas linhas temporais paralelas: simultaneamente, o espectador acompanha o processo em que Jamal Malik é preso e torturado, durante o qual ele revela detalhes de seu árduo cotidiano, e a trajetória do jovem no programa de perguntas e respostas. Ou seja, ao mesmo tempo em que testemunhamos a oportunidade de um adolescente pobre e analfabeto ascender socialmente, somos sensibilizados pela nobreza de sua biografia e de sua paixão por Latika. Quer saber o que acontece no fim? Clique aqui para baixar Slumdog Millionaire (a legenda está junto com o torrent), que ainda não tem previsão de estreia nos cinemas brasileiros.
O talento de Danny Boyle, conhecido por seus lépidos movimentos de câmera e cores vibrantes ou pelos cortes nervosos, os quais colocam o espectador no meio da ação, é indiscutível, assim como a beleza da obra desenvolvida pelo roteirista Simon Beaufoy (Ou Tudo Ou Nada). Porém, o resultado final de Slumdog Millionaire se deve e muito ao trabalho da co-diretora Loveleen Tandan, natural de Mumbai. Além de guiar o diretor irlandês no que diz respeito à geografia, Tandan também exerce um influente papel no sentido de conferir ao trabalho uma natureza mais realista. Afinal, as locações se concentram nas ruas e vielas da cidade indiana, nas quais há um número exorbitante de mendigos, e em aglomerações de uma favela formada com chapas de alumínio, passando por um bairro de prostituição até o marco arquitetônico da estação de trem Victoria Terminus. (Foto: Sawf News)
Ela é o ponto chave desse encontro entre Hollywood e Bollywood, do formato, estilo e técnica usados na indústria norte-americana e um roteiro que remete aos clássicos do cinema indiano setentista.
- Para nós é quase como uma validação da nossa celebração do cinema, a forma como contamos nossas histórias - disse a co-diretora. - Parece nosso.
No entanto, as semelhanças param por aí. Quem viu Slumdog Millionaire sabe que o filme não poderia ser de Bollywood, uma vez que a indústria do cinema indiano trabalha essencialmente com cenários produzidos em grandes estúdios ou até mesmo lugares exóticos, a fim de produzir uma sensação de loucura, criar uma atmosfera de fantasia. Definitivamente, não é o caso.
A CONSAGRAÇÃO DE WINSLET. O Globo de Ouro 2009 significou também a afirmação para Kate Winslet (Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças), que é até hoje lembrada por sua atuação no arrebatador Titanic, porém está longe de ser esse o seu melhor trabalho. A atriz faturou as estatuetas de Melhor Atriz em Filme Dramático, por Revolutionary Road, e Melhor Atriz Coadjuvante, por The Reader. Infelizmente, ambos os filmes ainda não foram disponibilizados na internet (caso você conheça algum link e quiser compartilhá-lo, sinta-se à vontade) e eu não pude ver. Mas pelo making of, trailer e cenas divulgadas, dá pra ter uma noção da boa fase de Winslet. Não se ganha dois Globos de Ouro assim, de um dia para o outro.
De qualquer forma, Winslet me ferrou no bolão da produtora. Quanto ao prêmio de melhor atriz coajudante, tinha apostado em Amy Adams, indicada por Dúvida. Já em relação ao de melhor atriz em filme dramático, apostei com veemência em Anne Hathaway, que está sensacional em O Casamento de Rachel, um dos destaques do Festival do Rio 2008. Bah.
SURGE UMA ESTRELA. Ouvi alguns comentários pouco entusiásticos quando apostei em Sally Hawkins (Happy-Go-Lucky) para o prêmio de melhor atriz em filme de comédia ou musical, não é, @emartins? Pois bem, ela venceu, e com justiça. É uma dessas atrizes da nova geração formadas no teatro e com potencial para brilhar em qualquer tipo de personagem. Rebecca Hall é muito bonita e tem futuro, mas não rouba a cena em Vicky Cristina Barcelona. Meryl Streep, a meu ver, pagou o grande mico da carreira ao aceitar um papel em Mamma Mia!. Frances McDormand, impagável em Queime Depois de Ler, era outra que poderia vencer o prêmio. Mas deu Sally Hawkins, fazer o que.
A Emma Thompson eu não cheguei a ver em Last Chance Harvey.
PRÊMIO DUVIDOSO. Não pude conferir a atuação de Dustin Hoffman em Last Chance Harvey, mas duvido que ele não tenha sido melhor do que Colin Farrell em Na Mira do Chefe. E não se trata nem de uma questão de preconceito, por ele se enquadrar no estereótipo de "bad boy de Hollywood" e ter uma carreira, no mínimo, duvidosa. Em Na Mira do Chefe, Farrell não chega a ser uma tragédia, mas também está longe de ser digno de um Globo de Ouro. Dos concorrentes, vi apenas Javier Bardem em Vicky Cristina Barcelona. Por isso não tenho condições de ser mais taxativo do que isso em relação ao comentário.
Ah, e quanto ao Javier Bardem, ficou no mesmo patamar: nem trágico, nem espetacular. Bem distante da atuação perfeita como Chigurh, em Onde Os Fracos Não Tem Vez.
Pois bem, eu não só apostei em Sean Penn no bolão como também gostei mais de sua atuação (aliás, considero que o filme não vem recebendo a devida atenção da crítica internacional). No entanto, não consigo entender a opinião de Rubens Ewald Filho. Nada tem a ver com o merecimento ao Globo de Ouro ser um galã como Brad Pitt ou Leonardo DiCaprio, ou um "cult" como Sean Penn. Rourke está excelente em The Wrestler e era um concorrente à altura dos demais. Portanto, a estatueta está em boas mãos.
Agora, para o bolão do Oscar, continuo apostando no Sean Penn. E não comentei a respeito de Leonardo DiCaprio pois não vi o filme pelo qual foi indicado, Revolutionary Road.
Consegui um link para baixar o Revolutionary Road, bocó.
Te mandei por email.