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 Desbravando Lesbos - O desfecho
Agosto 28, 2008
21/JUN/200810h12min – Após um breve cochilo frente ao laptop, acordei ainda há pouco com aquela ótima sensação de trabalho finalizado. A madrugada foi longa – horas e horas de trabalho ininterrupto – e só vim a ceder ao sono por volta das nove e meia da manhã deste sábado (21). O artigo, enfim, ficou pronto: três laudas, tal como me foi pedido. E ainda tenho um inteiro para desfrutar da companhia de Tina. O que mais eu poderia desejar?

Não entendeu nada? Leia os três relatos anteriores aqui, aqui e aqui.

21/JUN/200817h20min – Em sinal de agradecimento a Dona Yonassis pela exímia hospitalidade com a qual fui recebido, resolvi colocar a mão no bolso e almoçar no albergue. A gastronomia local, aliás, é essencialmente baseada em frutos do mar. O prato do dia era peixe cozido – cujo nome em grego não consegui compreender – com molho de alcaparra, acompanhado do tradicional ouzo. Uma boa pedida, afinal.

Em seguida, dirigi-me à residência de Tina e de sua mãe, a costureira Acidália, a qual foi meio difícil encontrar (Mitilene, no que diz respeito à estrutura urbana, se parece com Salvador: um sem número de vielas, becos e ladeiras compactas, sempre com o horizonte cerúleo dividindo a paisagem paradisíaca. No entanto, em Lesbos você não vai encontrar quilos de lixo por metro quadrado nem sofrer com o desagradável cheiro de urina exalante das calçadas). Tomamos um café em sua casa e depois ela me levou para conhecer a Floresta Petrificada, em Eresos, um dos principais pontos turísticos da ilha. Foi então que resolvi abrir o jogo.

Antes de tudo, sejamos sinceros: eu não podia voltar para o Brasil sem contar a verdade para ela e, evidentemente, publicar o artigo sem o seu consentimento. Tina foi a minha fonte crucial e, a todo o momento, deixou claro que tinha a mais absoluta confiança na minha pessoa. Mas ao revelar o sórdido segredo eu correria dois riscos: a raiva que ela sentiria por mim, compreensivelmente inevitável, e a negação de tudo o que me dissera até então a respeito do Mulheres de Fibra. Em outras palavras, estava prestes a me ferrar tanto no âmbito pessoal como no profissional.

Paramos em uma pequena praça próxima a entrada para a Floresta Petrificada. Ela me pediu um cigarro e eu, visivelmente aflito, por pouco não destruí o maço ao tentar abri-lo. Tina, que não é burra nem nada, não demorou em reparar a minha lividez e notória insegurança.

– O que há com você? Está pálido... – questionou ela, colocando a mão sobre a minha face esquerda.

– Preciso te falar uma coisa... – respondi.

– Pois diga – disse ela.

Tirei da mochila uma versão impressa do artigo que escrevera durante a madrugada. Ela leu, pacientemente, e até chegou a rir em determinados momentos, deixando-me ainda mais confuso.

– Do que você está rindo – interpelei.

– Suas descrições são engraçadas – respondeu ela, ingênua.

– Veja bem, eu sou um jornalista e não pesquisador. Estou aqui para escrever um artigo sobre a insatisfação das mulheres naturais de Lesbos quanto ao uso da palavra lésbica, sobre o Mulheres de Fibra e tudo o mais... E você, invariavelmente, acabou sendo a minha principal fonte. Bom, no começo...

– Então você me enganou? – interrompeu-me.

– Não exatamente. No começo, confesso, eu te encarava como uma simples fonte que poderia fornecer informações preciosas a respeito do MDF. Era o que importava, somente. Mas eu... (pausa) É complicado...

– Por que você não vai direto ao ponto?

– Bom, eu acho que acabei me apaixonando por você. Essa é a verdade. E passei a me sentir extremamente mal por ter omitido as razões pelas quais vim para Lesbos – falei, respirando fundo em seguida.

Ela nitidamente não sabia o que dizer. E acabou não dizendo nada, no fim das contas. Apenas tossiu e perguntou se já não estava na hora de conhecer a Floresta Petrificada. Não consegui captar o simbolismo da reação, mas estava inerte o bastante para não empurrar a situação com a barriga. A caminhada pela Floresta Petrificada se deu em tom fúnebre – poucas palavras, aroma de constrangimento e uma recíproca vontade de sumir. Por um momento desejei não ter conhecido àquela mulher tão incrível.

Voltamos para Mitilene e dessa vez fiz questão de descer num ponto de ônibus – cada segundo perto dela era como uma sessão de tortura. Ela não entendeu muito bem, mas aceitou.

– Volto para o Brasil na madrugada de hoje e gostaria de vê-la à noite, talvez no Ômega-Sigma ou em qualquer outro lugar que for de sua preferência. Espero não ter deixado de ser uma boa companhia – disse, antes de sair do carro.

– Eu te ligo – limitou-se a dizer, sem esboçar qualquer tipo de expressão facial.

21/JUN/200819h46min – Já são quase oito horas da noite e Tina ainda não me ligou. Será ela que não vai querer me encontrar nesta noite e eu terei de voltar para o Brasil sem me despedir? Será que ela não vai querer, posteriormente, trocar e-mails, cartas, e talvez um dia conhecer o Rio de Janeiro? Faço-me milhões de perguntas em virtude dessa voraz ansiedade iniciada desde o momento em que cheguei ao albergue. Nunca fui fã do ato de esperar – muito pelo contrário – e, nesse caso, a situação é ainda mais grave. Todos os meus pensamentos foram misteriosamente bloqueados.

Você deve estar se perguntando: por que o idiota não toma iniciativa e telefona para ela?

Pois eu cheguei a tentar, inclusive. Mas me enrolei com os inúmeros códigos de área e acabei desistindo.

21/JUN/20081h52min – Depois de várias tentativas frustradas, finalmente disquei corretamente os códigos de área e consegui telefonar para Tina – isso aconteceu por volta das oito e vinte da noite (já não tinha mais calmante e cogitava a possibilidade de apelar para a aspirina). Ela atendeu com uma voz sorumbática, mas me pareceu disposta a dialogar. Combinamos de nos encontrar no Ômega-Sigma às nove horas. Antes de desligar, ela proferiu um discurso breve sobre princípios éticos e sobre como ela havia me xingado após chegar a sua residência e se trancar no quarto, o que, naturalmente, fez com que eu me sentisse ainda pior.

Tive alguns minutos para pensar em algo que fosse surpreendê-la antes de começar a me arrumar. Algo que não parecesse brega, claro, mas que arrancasse um sorriso singelo, uma demonstração de afeição ou qualquer coisa que aliviasse um pouco a minha barra. Optei por bombons recheados (estava ciente de que se tratava de um clichê, mas não havia tempo hábil para coisa melhor). Cheguei ao Ômega-Sigma dez minutos antes do combinado e escolhi a mesma mesa na qual nós conversamos pela primeira vez. Dessa vez ela, tecnicamente, não se atrasou: chegou às nove horas e um minuto. Estava mais bela do que nunca.

Dei a caixa de bombons, sem dizer nada, e ela sorriu em sinal de agradecimento. Ficamos em silêncio por uns dois ou três minutos até que eu solicitei ao garçom duas long necks de Durvel. Em seguida, sentenciei:

– Não vou mais publicar o artigo. Já me decidi.

Ela me olhou surpresa e fez uma careta como quem não estava acreditando no que eu acabara de falar. Mas eu repeti a frase e ela assumiu um semblante sério.

– Mas isso não vai prejudicar a sua carreira? – perguntou ela, doce.

– Independentemente disso, não tenho o direito de prejudicar a sua luta. O MDF mantém a identidade de seus integrantes em sigilo não por modismo e sim para evitar processos por discriminação, xenofobia ou qualquer outra interpretação equivocada dos princípios da ONG. Eu até tenho a opção de não citar nomes, tal como fiz e você mesmo pôde comprovar, mas o artigo é muito claro quanto à logística do grupo, às relações com parlamentares, ameaças de suborno e tudo o mais. Todos saberiam que você foi a minha fonte, pois estivemos muito próximos nos últimos dias. Vou ligar para o meu editor ainda hoje e inventar alguma desculpa – falei, demonstrando tranqüilidade.

Ela então me beijou antes que eu pudesse esboçar qualquer reação, esvaindo a faceta do profissional correto. Tive a certeza de que deveria ter tomado tal atitude antes, pois esta era a minha última noite com Tina. Duas horas e meia ao seu lado no Ômega-Sigma transcorreram como se fossem dois minutos e trinta segundos. Já nem pensava mais no artigo e na possibilidade de crescimento profissional, afinal, tempo para refletir sobre isso não me faltaria ao voltar para casa. Isso, claro, se as lembranças dos momentos com ela não tomassem o meu cérebro por completo.

– Quer saber? Lembra-se quando eu te disse que estávamos cansados de nos esconder? – perguntou ela.

– Sim, claro – respondi.

– A publicação desse artigo vai ser boa nesse sentido e ainda vai nos garantir visibilidade internacional. Por favor, faça isso por nós – disse ela, de forma surpreendente.

– Você está brincando? – interpelei.

– Não, não estou. Na verdade, eu não estava preocupada com o seu artigo e sim chateada por você não ter sido sincero comigo. Quero que você o publique.

Ficamos nos olhando por uns dez ou quinze minutos (era como se o relógio tivesse parado e eu não conseguiria dizer ao certo quanto tempo se passou) a fim de que as lembranças posteriores (como as que eu teria quando voltasse a pisar em solo brasileiro) fossem as mais nítidas possíveis. O momento de partir estava se aproximando.

Bebemos mais algumas cervejas, jogamos bilhar e até dançamos um pouco. Não reproduzirei aqui os pequenos diálogos entre beijos, abraços, goles, tacadas e passos desarticulados – pareceria piegas demais para uma história cujo fim é previsível. E também porque ela está aqui ao meu lado, no Aeroporto Internacional de Atenas, divertindo-se com a minha falta de habilidade para descrever momentos aparentemente românticos.

Vôo 1743–BRL, com destino ao Rio de Janeiro, plataforma D; anunciou o alto-falante. Chegou a hora de voltar para casa. E para o mundo real.

Leia também o http://aforismoemcartaz.blogspot.com e o http://twitter.com/hanrrikson

-ouvindo- The Fratellis \ Got ma nuts from a hippy

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    Bookmark and Share   postado por Hanrrikson de Andrade @ 28.8.08   0 comentários

     Desbravando Lesbos - III
    Agosto 17, 2008
    20/JUN/2008 23h45min – Meu segundo dia em Lesbos foi definitivamente acima das expectativas. Não só pelo fato de eu ter descoberto várias informações interessantes a respeito do Mulheres de Fibra, mas como também por ter passado o dia com uma mulher sensacional. Confesso-lhes: não consigo parar de pensar em Tina. Sinto-me, aliás, cada vez mais aflito por estar, de certa forma, sendo leviano com ela. Mais eis a questão: se eu jogar limpo, explicando objetivamente as razões pelas quais vim para cá, corro o risco dela simplesmente negar tudo o que dissera e ainda alertar suas companheiras quanto à existência de um jornalista estrangeiro interessado no MDF. Sinuca de bico, meus caros.

    (Não entendeu nada? Leia os dois relatos anteriores aqui e aqui).

    Após a passeata, que durou aproximadamente uma hora e quarenta e cinco minutos, fomos ao teatro da Praça de Ayassos – em cartaz uma peça chamada Coração de Papel, do italiano Giuseppe Cassola, muito boa por sinal. Em seguida, jantamos no Lemoni & Piperi – um dos melhores restaurantes de Mitilene – e aproveitamos o fim de tarde na principal praia da ilha, Petra. Admito que por várias vezes estive próximo de beijá-la (na verdade, esta era a minha vontade), mas a faceta do profissional correto foi soberana. Ao fim do agradável dia, ela me deu uma carona até o albergue – e cá estou eu, frente ao laptop e acompanhado por uma garrafa de Heineken (ao som de Mr. Writer, do Stereophonics).

    Como tenho apenas mais um dia em Lesbos (embarco de volta para o Brasil às duas da manhã deste sábado), começarei a escrever o artigo ainda nesta madrugada. A quem interessar possa, deixo claro que não julgo prudente exagerar na sofisticação do texto, uma vez que a excentricidade da história já fala por si só. Portanto, ainda preciso de mais aspas, informações mais precisas quanto a algumas estatísticas, além de uma breve pesquisa sobre a existência ou não de outros grupos como o MDF. Mas a verdade é que isso nem me preocupa tanto assim, pois acho que estou no caminho certo. O que me deixa aflito mesmo é o fato de não poder contar a verdade para Tina, no sentido de que ela me conheça realmente como sou. Isso faz com que eu me sinta o mais antiético dos jornalistas e dos seres humanos em geral.

    A PASSEATA. Não foi uma passeata de grande porte, por assim dizer, mas o suficiente para incomodar as autoridades gregas. Cerca de 250 pessoas – em sua maioria mulheres naturais de Lesbos – caminharam da Igreja de Mitilene à Assembléia Legislativa em sinal de protesto pela associação semântica entre a palavra lésbica e o homossexualismo feminino, nesta sexta-feira (20), na capital da ilha, Mitilene. Ao contrário do que se especulava, as integrantes da organização não-governamental Mulheres de Fibra, que mantêm suas identidades em sigilo desde o início das atividades da ONG, não abdicaram do uso de máscaras. A manifestação se deu de forma pacífica até o momento em que uma mulher não identificada atirou uma pedra na fachada do parlamento da cidade. Houve conflito entre manifestantes e policiais, o que resultou na prisão de cinco pessoas. Todas já foram liberadas.

    No momento em que a confusão estourara, a primeira coisa em que pensei foi: preciso me certificar de que Tina está a salvo. Mas como faria para identificá-la? Chega a ser engraçado e difícil de acreditar, mas todas as integrantes do MDF (180 pessoas, aproximadamente) usavam máscaras de palhaço, de vários animais e até aquela usada por Jigsaw em Jogos Mortais, entre outras. Eu olhava e não conseguia parar de rir – até que algumas mulheres que caminhavam ao meu lado passaram a lançar olhares de reprovação em minha direção. Eu, naturalmente, receei por um possível linchamento.

    Não tive como encontrar Tina antes da passeata, pois aproveitei a manhã de sexta-feira para conhecer alguns pontos turísticos da cidade e ir à praia (o que fiz logo após enviar o segundo relato). A concentração para o protesto começou por volta das onze e meia da manhã (eu me encontrava num quiosque, em Petra, com uma lata de cerveja nas mãos). Cheguei à manifestação por volta das 13 horas – e todos já estavam devidamente mascarados e trajados com camisas personalizadas (a frase mais comum era lésbica com muito orgulho). Portavam também muitos cartazes e faixas, além de um estrídulo carro de som, cujos microfones deram a um desses animadores de festas.

    Foi incrível como vários cidadãos se juntavam à multidão com o decorrer da passeata. Não só mulheres, mas como também homens, crianças, idosos e até estrangeiros (não os homossexuais, claro). O MDF está cada vez mais se tornando popular em Lesbos, o que torna a pauta ainda mais curiosa. Ciente disso, eu não poupei esforços para extrair da passeata informações relevantes e aspas interessantes, além, claro, de tirar boas fotos. A princípio, pessoas comuns não me interessavam, de modo que fui gradativamente me aproximando do grupo dos mascarados. Tentei conversar com uma jovem que usava uma máscara que muito se assemelha às do grupo Slipknot – muito simpática, a máscara, por sinal –, mas estávamos próximos ao carro de som e quase não podia escutá-la. Até que, pasmem, o animador de festas resolveu fazer uma pausa e o silêncio só não foi total em virtude de alguns gritos proferidos por manifestantes mais empolgados. Mas foi inútil. A jovem não falava inglês.

    Acabei conseguindo, em seguida, as aspas mais interessantes que poderia conseguir na passeata. Afastei-me, por alguns minutos, da algazarra dos mascarados para respirar com mais facilidade e observei que, bem na minha frente, duas jovens acompanhavam a multidão, com passos lentos e tímidos. A mais alta – de uns um metro e oitenta e dois centímetros –, estava com o braço envolto sobre o ombro da mais baixa – que deve ter uns vinte centímetros a menos – e, volta e meia, cochichava em seu ouvido. Desconfiei, afinal. Aproximei-me sorrateiramente a fim de puxar assunto.

    – Uma causa justa, não acham? – disse, despretensiosamente.

    – Sim, claro – respondeu a mais alta, Krypta. – Temos certeza de que não se trata de algo contra as homossexuais e sim contra o uso de uma simples palavra – acrescentou, praticamente abrindo o jogo.

    Eris, a baixinha, reforçou a idéia de sua companheira.

    – As mulheres nascidas em Lesbos passam por constantes constrangimentos em virtude dessa ligação entre uma palavra e a homossexualidade feminina. Elas têm toda a razão.

    – Sem querer parecer inconveniente, mas... Creio que não seja o caso de vocês – disse, visivelmente desconfortável em tal situação.

    – Já sofremos preconceito naturalmente, independentemente da naturalidade – replicou Krypta.

    Perfeito. Um casal de lésbicas em uma passeata das lésbicas, digo, das mulheres nascidas em Lesbos, contra o uso da adjetivação lésbica. Mais pitoresco do que isso, impossível.

    Agradeci a Krypta e Eris pela atenção e passei a procurar por Tina, pois a multidão já se encontrava no Complexo Político de Lesbos, o qual abriga a Assembléia Legislativa – seu celular estava desligado, o que me deixou realmente aflito e ansioso. Os manifestantes foram recebidos pelo deputado Vangelis Konstantinou, de Plomari, o mais árduo defensor da causa no parlamento. Após quinze minutos de diálogo em tom de negociação – o político tentava explicar à multidão que seria impossível uma audiência naquele momento –, uma das mascaradas atirou uma pedra na fachada da Assembléia Legislativa. Os policiais, que, assim que chegaram, fizeram um cordão de isolamento para impedir uma possível invasão ao parlamento, deram alguns tiros para o alto e usaram bombas de efeito moral para dispersar os manifestantes. Nem todos se afastaram e os ânimos ficaram ainda mais exaltados. Alguns dos policiais que usavam escudos blindados (uma espécie de Batalhão de Choque) não abdicaram da violência ao partir para cima dos civis. E eu era um deles, afinal, não havia tempo hábil para explicar a um policial enfurecido as razões pelas quais estava ali. Quando a possibilidade de acumular hematomas pelo corpo já me parecia inevitável, uma manifestante que usava máscara de Jigsaw me puxou pelo braço. Corremos por uns cinco minutos sem olhar para trás até que meus pulmões começaram a falar mal de minha mãe. Ao parar – estávamos num imenso bosque inerente ao Complexo Político de Lesbos –, joguei-me sob a grama e acendi um cigarro. Jigsaw se sentou ao meu lado e abriu o seu maço de Carlton.

    – Admirável a coragem com a qual você enfrentou os policiais – ronronou ela, em tom sarcástico.

    – Não se vanglorie. Qualquer policial que tenha visto as quatro versões de Jogos Mortais não seria imbecil o bastante para bater de frente com você – repliquei.

    Ela deu uma gargalhada como quem realmente havia achado graça. Bateu um déja vu.

    – De qualquer forma, sou grato pela ajuda.

    Até que, enfim, coloquei minha memória para funcionar. A mesma gargalhada que ouvi no Ômega-Sigma após a piada sobre os rins de... Tina.

    – Por que não tira a máscara? – perguntei.

    – Melhor assim? – respondeu ela, desfazendo-se do pobre Jigsaw.

    – Acho que sim.

    UMA MULHER FASCINANTE. Passei rapidamente no albergue a fim de tomar banho e trocar de roupa. Não estava com fome o suficiente para gastar dez dólares com o almoço da Dona Yonassis, que é tão bom quanto caro.

    – Mas não faça essa... (pausa) Como se fala...

    – Desfeita? – arrisquei, na tentativa de ajudá-la.

    – Isso! – concordou, sorrindo.

    Não era uma desfeita e sim uma questão de economia. Mas não valia a pena perder tempo explicando isso a Dona Yonassis, cuja conversação em inglês era similar a um processo de alfabetização.

    Dirigi-me até a Praça de Ayassos, afinal, combinara com Tina de ir ao Teatro Zenão de Cítio, que fica bem próximo dali. Ela chegou atrasada, como já era de se esperar – aquele era o nosso primeiro encontro marcado com certa antecedência e era evidente que ela iria manter a tradição do atraso. Mas eu não me importei. Estava feliz por encontrá-la.

    Deixei um pouco de lado o processo de apuração a respeito do Mulheres de Fibra, de forma que dialogamos em tom mais pessoal, intimista. Falou-me sobre o pai, o qual ela não possui muitas lembranças, pois este abandonou a família no dia em que ela completou dois anos de idade. Tratei de dar novos rumos à conversa antes que lágrimas umedecessem seus olhos verdes. Tina pode ser definida como uma pessoa idealista e meiga, que exerce uma influência quase hipnótica sobre quem está próximo a ela. Evitava olhar constantemente para seu rosto, pois sou, digamos, susceptível a mulheres idealistas. Se forem meigas então, torna-se uma questão de covardia.

    – Mas fale-me um pouco sobre você... Já deve estar cansado de escutar coisas a meu respeito – disse, sorrindo.

    Não era conveniente falar sobre mim, afinal, existia uma verdade a ser revelada.

    – É evidente que não estou cansado de falar sobre você – respondi, constrangido.

    – Como é a sua vida no Brasil? – perguntou ela.

    – Normal. Digo, faço as mesmas coisas que as pessoas fazem por aqui. As diferenças culturais nem são tão grandes assim – repliquei.

    Então ela fez alguns comentários elogiosos a meu respeito, os quais eu prefiro ocultar. Em seguida, colocou a sua mão sobre a minha e recostou a cabeça sobre o meu ombro direito. Nervoso e sem saber o que falar, cantarolei os primeiros versos de Duas Cores, do Mombojó, em português mesmo.

    – Vejam só, ele está cantarolando em português... Algo que eu não gostaria de entender? – perguntou, maliciosamente.

    – Não se trata disso. É apenas uma música – respondi.

    – Sei... Bom, a sessão já vai começar. Vamos?

    E fomos. Em cartaz, a comédia Coração de Papel, do dramaturgo italiano Giuseppe Cassola, que me arrancou risadas sinceras. Relata a história de um artesão italiano que se muda para Nova Iorque e tem como única fonte de renda a produção de origamis. Deixamos o teatro por volta das oito e meia da noite e iniciamos a procura por um bom restaurante. A escolha, por razões óbvias, ficou a cargo de Tina.

    – O Lemoni & Piperi é um dos melhores restaurantes da ilha – sentenciou.

    De fato, o tal restaurante tinha um clima agradável e ótimos pratos. Pedimos lagosta e Chardonnay.

    – Está gostando de sua visita a Lesbos? – perguntou ela.

    – Sim, claro. É sempre bom conhecer outras culturas – respondi.

    – Às vezes você me parece um pouco aflito, furtivo. Não consigo captar as razões pelas quais tenho essa impressão – disse, enquanto acendia um cigarro.

    – Você é uma mulher incrível, Tina. Acredite – decretei. Foi a única coisa que me veio à cabeça.

    – E está sempre desviando o assunto – replicou, sorrindo.

    A conversa tomara um rumo perigoso, afinal, ela estava desconfiada e tinha motivos para tal. Mas consegui burlar a curiosidade alheia ao questionar sobre a sua vida amorosa. Fez uma pausa dedicada à reflexão e iniciou então um discurso de aproximadamente cinco minutos. Em voga, dois relacionamentos frustrados, sendo um deles recente. Ela não havia esquecido totalmente o rapaz em questão, mas se mostrava disposta a isso. Por volta das dez horas e quinze minutos, saímos do Lemoni & Piperi e fomos caminhar no entorno de Petra.

    Na visão de qualquer pessoa de bom senso, um encontro mais romântico do que esse seria impossível. E eu estava feliz por isso, no duro. Mas pensava (e penso), antes de tudo, em duas coisas: a) minha viagem não vai durar mais do que algumas horas; b) a reação de Tina caso eu abrisse o jogo. Isso me emperrava de certa forma – deixava-me estático, inerte e inseguro quanto ao que eu estava (e estou) estava fazendo.

    Conversamos por mais uma hora num quiosque em Petra e então cada um seguiu o seu caminho. Ela me deu uma carona até o albergue e, ao se despedir, agradeceu pela companhia. Por pouco não quebrei o gelo e tomei a iniciativa de beijá-la. Em vez disso, apertei uma de suas bochechas (até agora ainda não consegui compreender o porquê dessa atitude imbecil) e fiz uma piada qualquer. Típica atitude de um babaca.

    – Te vejo amanhã – gritou ela, enquanto eu me esforçava para encontrar o buraco da fechadura.

    (Continua...)

    -ouvindo- Radiohead \ Jigsaw falling into place

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      Bookmark and Share   postado por Hanrrikson de Andrade @ 17.8.08   0 comentários

       Desbravando Lesbos - II
      Agosto 09, 2008
      20/JUN/2008 – 12h23min – Cheguei ao tal Ômega-Sigma por volta das dez e meia da noite desta quinta-feira (19). Trata-se de um bar razoavelmente grande, com direito a bilhar, jukebox, caça-níqueis e várias marcas de cerveja - localizado a cerca de 200 metros da Praça de Ayassos. O público é variado: de jovens entre 19 e 22 anos aos fanfarrões na faixa etária dos quarenta e até mesmo dos cinqüenta. E a relação entre os vários tipos de público é amistosa, segundo alguns dos freqüentadores. Para a estudante de economia Alexis Ioannidis, 22 anos, o baixo fluxo de turistas é um fator fundamental para o sucesso do Ômega-Sigma.

      – Todos vêm aqui para se divertir: beber, jogar, ouvir música etc. As pessoas se respeitam, conhecem seus limites e fazem de tudo para manter um clima agradável. É diferente, por exemplo, de um lugar cujo público hegemônico é formado por turistas. Geralmente, eles saem à noite em busca de libertinagem ou algo do tipo. Acabam extrapolando na medida em que o álcool começa a fazer efeito – disse a estudante, que já no estacionamento bebericava sua Heineken ao lado de duas amigas empolgadas com o som do AC/DC.

      Uma delas, aliás, se chamava Barbara e conhecia Tina, filha da costureira Acidália e possível integrante do Mulheres de Fibra (lembram dela?). Dia de sorte, pensei. Logo na primeira abordagem já descobrira pelo menos uma referência a tal Tina, que era até então a principal pista. Barbara, porém, reduziu substancialmente a minha empolgação: Tina não havia confirmado se iria ao Ômega-Sigma naquela noite, pois estava, digamos, indisposta.

      – Chegamos a nos falar ontem, mas ela não confirmou nada – reiterou a estudante de Administração.

      Julguei válido conversar um pouco mais com elas. A terceira amiga, Cybele, era a que menos falava e a que mais me intrigava: tinha uma expressão aflita, pouco sorria e volta e meia lançava olhares punitivos a determinadas pessoas que lá estavam. Também conhecia Tina - embora não fosse uma amiga propriamente dita - e também apresentara sinais de descontentamento quanto à presença de turistas em Mitilene. Mas concluí ser besteira da minha parte assim que, em determinado momento da conversa, citei o Mulheres de Fibra.

      - Esse é o tipo de conduta de gente desocupada - garantiu, seca.

      - Não vejo como uma questão prioritária. Há vários outros problemas, como a conservação do nosso patrimônio histórico, que deveriam ser tratados com mais seriedade - reforçou Barbara.

      Após experimentar o tal do ouzo, resolvi circular pelo bar em busca de alguma pista ou qualquer coisa que me ajudasse no sentido de chegar ao Mulheres de Fibra. No entanto, ninguém sabia de nada - ou pelo menos fingia não saber. Acabei reencontrando Barbara na mesa de bilhar, que me garantiu ter visto Tina bebendo no balcão ao lado de uma amiga. Ela, segundo informações, trajava uma blusa preta ligeiramente decotada e com mangas bufantes, calça jeans escura e salto.

      Depois de procurá-la por aproximadamente dez minutos, identifiquei uma garota com tais características na fila do banheiro e me posicionei em sua espera (não na saída do banheiro exatamente, mas sim próximo a uma mesa pela qual ela obrigatoriamente teria que passar). Ao vir em minha direção, coloquei-me à sua frente e interpelei:

      – Então você é a Tina?

      – Sim. Em que posso ajudá-lo? - replicou.

      - Bom, soube que sua mãe é costureira e pensei que talvez ela pudesse me ajudar a resolver alguns pequenos problemas - respondi, com um meio sorriso.

      - Acho que essa não é uma boa hora - sentenciou, retirando-se. - Procure-me amanhã.

      - Na verdade, acho que você também pode me ajudar. Sou novo aqui em Lesbos e preciso de algumas informações referentes à cultura local. Bom, aceita uma cerveja?

      - Agora você começou a falar a minha língua. Durvel, por favor.

      - Boa escolha.

      Tina é, de fato, uma mulher muito bonita. Olhos vivos e acinzentados, cabelos anegrados e cacheados na altura do ombro, um corpo esguio e naturalmente sexy (na medida certa, eu diria). Sua personalidade forte também não pode deixar de ser citada - tem opiniões devidamente embasadas, o que a torna uma pessoa ainda mais interessante. Foram aproximadamente duas horas de diálogo sem qualquer menção ao Mulheres de Fibra, afinal, eu não conseguiria nada de primeira considerando a inteligência e a perspicácia do interlocutor (antes mesmo da cerveja chegar, ela tratou de apresentar o seu cartão de visitas).

      - Analisemos as possibilidades. Você não pretende me embebedar e roubar meus rins a fim de complementar a renda mensal, né? - questionou, sorrindo.

      - Não. Do jeito que você parece beber, seus rins não devem ter muito valor no mercado - respondi.

      Tina deu uma gargalhada. Realmente achou graça.

      - Quem é você, afinal? E como sabe que minha mãe é costureira? - interpelou, abrindo a sua long neck.

      - Na verdade, sou apenas um estudante estrangeiro em busca de informações mais detalhadas a respeito da história da política grega, das relações de poder e tudo o mais. Sabe, para um trabalho acadêmico.

      - E como ficou sabendo que faço Ciências Políticas? - perguntou, franzindo as sobrancelhas. – Você realmente investigou a minha vida, hein.

      - Ora bolas, sou um pesquisador – repliquei, com um meio sorriso.

      Na verdade, eu sabia apenas que ela era filha de uma costureira. Nada mais.

      Chamei-a para dançar assim que percebi a eminente e inevitável falta de assunto. Ela topou, mas com ressalvas. Disse que eu não parecia ter habilidade suficiente para acompanhá-la, o que se comprovou em questão de segundos, logo que pisamos na pista de dança. Ao nosso lado, duas mulheres dançavam juntas – nada que fosse capaz de arregalar os olhos de uma pessoa moralista, mas juntas afinal. Aproveitei o gancho:

      – Elas dançam bem, não? – perguntei, fazendo um sinal com a cabeça em direção ao casal. – Muitas lésbicas vêm aqui?

      – Se você fosse minimamente inteligente repararia que todas as mulheres que aqui estão são lésbicas – sentenciou, olhando-me ferozmente.

      – Como assim? – perguntei como quem não havia entendido a mensagem.

      Ela me respondeu com um breve silêncio – que, na verdade, era equivalente a uma confissão. Tudo convergia para isso.

      – Bom, perdoe a minha ignorância. Acho que sei o que quer dizer – falei.

      – Não sei por que vocês, estrangeiros, persistem em associar essa palavra ao homossexualismo feminino. Se fosse com você, por exemplo, o que acharia?

      – Acho que tentaria levar na boa – respondi. Mentira, evidentemente.

      Tina alegou cansaço e fomos para uma espécie de sacada próximo ao local destinado aos caça-níqueis. A vista para a ilha era realmente bonita, tal como o brilho lunar refletido nos olhos dela, que me parecia tão frágil e tão forte ao mesmo tempo.

      – Observe a lua, por exemplo. É como se ela estivesse carregada de boas energias e as distribuísse entre as pessoas. Passarias horas apenas olhando para ela. É fascinante – filosofou, enquanto tentava manusear uma velha luneta, instalada próxima ao pára-peito.

      – Vejo-a apenas como um ponto branco na imensidão escura – respondi.

      Ela deu de ombros para o meu comentário implicante e continuou com o pescoço voltado para cima. Aproveitei para ir ao banheiro, pegar mais duas cervejas e comprar um maço de cigarros. Provavelmente, Tina só se deu conta de que eu havia a deixado só por alguns segundos no momento em que abriu a sua Durvel. Já um tanto quanto alta, resolveu falar um pouco mais a respeito de sua vida pessoal. E quase todas as suas frases terminavam com aquele filho da puta ou espero que ele esteja na merda. Era a conversa tomando um rumo totalmente desagradável.

      – Desculpe, você não tem nada a ver com isso. Vou calar a minha boca. E pode falar que é um pouco de despeito da minha parte, eu deixo – disse, dando de ombros.

      – Não há do que se desculpar. Fique tranqüila – garanti.

      – É que ele foi tão filho da puta, mas tão filho da puta que eu não consigo parar de desejar a morte dele... – falou como uma das pessoas mais dramáticas de toda a Grécia. Sófocles ficaria no chinelo.

      – Bom, mudemos de assunto.

      Foi então que eu comecei a falar um sem número de besteiras a respeito da política da União Européia e de suas relações comerciais com o mundo. Não sabia como diabos fazer isso usando um ponto de partida tão nada a ver, mas pretendia, afinal, afunilar o assunto até chegar ao Mulheres de Fibra. Para minha sorte, Tina resolver tomar as rédeas da situação.

      – Por que cargas d’água você está puxando um assunto tão chato e tedioso? – questionou, seca.

      – É um ponto de vista. Não que ouvir a lamúria e as frustrações de uma pessoa tomada por ressentimento seja a pior coisa do mundo, mas eu, particularmente, prefiro telejornal a ver novela mexicana – respondi, abusando do sarcasmo. No entanto, digamos que ela não estava sóbria o bastante para captar a maledicência de minhas palavras.

      – Quer saber, foda-se. Será que eu posso contar um segredo ao Senhor Pesquisador? – perguntou, cambaleante.

      E contou tudo o que eu queria saber. As reuniões semanais, os integrantes mais conhecidos (pessoas da alta sociedade grega e tal), o apoio político e logístico, as pretensões, as falhas, as tentativas de suborno – exatamente tudo. Explicou-me as razões pelas quais os integrantes do MDF se reuniam secretamente e mantinham todas as identidades em sigilo e revelou, em primeira mão, que o anonimato estava prestes a ser rompido. Na minha primeira noite em Lesbos, já destrinchara todo o Mulheres de Fibra – desde sua criação – e conseguira, inclusive, aspas de uma das líderes do movimento. Só havia um problema. Ela não sabia que eu era um jornalista no exercício de sua profissão e pareceu até se simpatizar com a minha pessoa. A ponto de me convidar para a passeata desta sexta-feira (20), a qual será a primeira em que os manifestantes não usarão máscaras.

      – Estamos cansados de nos esconder – sintetizou Tina, antes de abrir mais uma Durvel.

      (Continua...)

      Clique aqui para ler o primeiro capítulo.

      -ouvindo- Regina Spektor \ Fidelity

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        Bookmark and Share   postado por Hanrrikson de Andrade @ 9.8.08   0 comentários

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