Para tudo o que acontece na vida, há pelo menos dois lados, duas versões. É o princípio básico da escolha e, considerando que a vida é feita de escolhas, essa pluralidade é decerto necessária. Uma mancha de batom no colarinho da camisa de um homem, por exemplo, suscita em torno de duas hipóteses primárias: ou ele tem uma amante ou é viado. Há algumas possibilidades menos prováveis, é verdade; o homem em questão pode ter uma amiga filha da puta o suficiente para forjar a situação ou até mesmo ter simulado este indício de relacionamento extra-conjugal para deixar a esposa com ciúmes. Mas toda e qualquer mulher, independentemente das circunstâncias, optaria pelo óbvio: "ele tem uma amante".
Acontece que a obviedade dessa afirmação só se sustenta a partir das inúmeras outras hipóteses, que, mesmo absurdas, não são impossíveis. O fato de não ser impossível torna-a esfarrapada. E a atribuição de valor "esfarrapada" reforça a veracidade da hipótese óbvia. Em resumo, se um indivíduo tem apenas uma verdade na qual acreditar, isto é, se a ele não é oferecido pelo menos duas versões do fato em questão, a possibilidade de equívoco se torna considerável.
Analisemos, por exemplo, o caso da morte da menina Isabella Nardoni. O argumento dos indiciados - o pai e a madrasta - é o de que uma terceira pessoa teria invadido o apartamento e assassinado a menina, afirmação esta baseada no achismo. Eles, supostamente, não têm ciência do que, de fato, aconteceu. Assim, partem do seguinte princípio: não matamos, logo, só nos resta acreditar que fora uma terceira pessoa.
No entanto, não há sinais de arrombamento ou algo do tipo, o que torna impossível a idéia de que um invasor teria barbarizado a pobre menina de cinco anos. Eliminando esta hipótese e considerando que uma criança não seria capaz de se suicidar em tais circunstâncias, o que nos parece mais óbvio? O pai, Alexandre Nardoni, e a madrasta, Ana Carolina Jatobá, são os autores do crime.
Mas será essa, afinal, a verdade? A inexistência de um álibi propriamente dito elimina a possibilidade de inocência do casal? Ao meu ver, o que acontece é justamente o contrário. É claro que a hipótese não pode ser descartada, mas fica ainda mais difícil crer na culpabilidade de ambos a partir do momento em que não há outras alternativas cabíveis. Prejulgá-los, tal como a Polícia e a mídia têm feito, reflete, naturalmente, na opinião pública. E aí vocês já sabem. Ocorre o linchamento moral, sem o menor resquício de compromisso com a realidade dos fatos. Independentemente do desfecho deste caso, uma coisa é certa: a vida de Alexandre Nardoni e Ana Carolina Jatobá nunca mais será a mesma.
As três únicas hipóteses (racionais) para o assassinato:
a) A menina teria se suicidado
Impossível, uma vez que a menina não demonstrava tendências suicidas, muito pelo contrário. Além do mais, antes de ser arremessada, ela fora asfixiada e ainda tinha um corte na cabeça, isto é, agressões antecederam ao ato final. Sem contar no fato de que criança alguma de cinco anos seria emo o bastante para cortar a grade de proteção da janela e se jogar do sexto andar.
b) Uma terceira pessoa teria invadido o apartamento da família e assassinado a menina
Impossível, uma vez que não há indícios de arrombamento ou algo do tipo, assim como não há sinais de roubo. Ninguém invadiria um apartamento a fim de, única e exclusivamente, matar uma menina de cinco anos com requintes de crueldade. Sim, existem vários psicopatas por aí. Mas há crianças mais acessíveis. A família Nardoni, aparentemente, não tinha inimigos ou conflitos que potencializassem esse tipo de vingança.
c) Alexandre Nardoni e Ana Carolina Jatobá assassinaram a menina
É o caminho mais óbvio, claro. Mas há uma série de ressalvas. Em primeiro lugar, as "evidências" encontradas pela Perícia são definitivamente estranhas. Será que a menina, antes de morrer, sangrou tanto assim? No carro, no tapete... No trajeto até a casa da família, Nardoni estava dirigindo e Ana Carolina Jatobá no banco do carona. Como agredir uma criança no banco de trás (sendo que os meio-irmãos também lá estavam, um de cada lado) a ponto de tirar sangue? Surreal demais. A criança fora espancada durante todo o trajeto e não houve qualquer tipo de reação dos irmãos (choro, gritos ou algo que pudesse chamar a atenção das pessoas que passavam pela rua)? Estranho!
Do carro até o apartamento, não havia sangue. A versão da Polícia dá conta de que o sangue referente ao corte na cabeça de Isabella teria sido estancado com uma fralda, que foi lavada posteriormente. Convenhamos: se uma pessoa, intencionalmente, estanca o sangue de outra com uma fralda e a lava em seguida - a fim de não deixar vestígios -, a medida mais inteligente não seria livrar-se da tal fralda de uma vez por todas? Talvez incinerá-la ou até mesmo jogá-la no Rio Tietê. Se há inteligência o suficiente para não deixar o sangue decorando a fralda, nada mais natural que o indivíduo em questão pensasse: "Oh! Preciso me livrar dessa merda".
Há, por fim, um detalhe que considero determinante: as reações e a conduta da mãe, Ana Carolina Oliveira. Nenhuma mãe, em sã consciência, falaria em perdão se, na verdade, não duvidasse da culpabilidade do acusado. Ela não ratificara a idéia de que Alexandre Nardoni seria uma pessoa agressiva, tal como alguns vizinhos afirmaram. Quase sempre tranqüila, chega a evitar comentar sobre os acusados. Se a própria mãe da menina parece não ter certeza, fica difícil acreditar que um pai, hipoteticamente movido por um ódio repentino da sua prole, resolvera espancar a sua filha de apenas cinco anos (ainda no carro, a ponto de tirar sangue, frente aos irmãos), esganá-la (culminando em asfixia, o que demonstra verdadeira intenção de matar. Não fora algo acidental) e, por fim, arremessá-la do sexto andar (a fim de se livrar do corpo, mesmo sabendo que, em questão de segundos, ela seria rodeada por uma multidão de curiosos e ele, até então última pessoa a ter contato com Isabella, seria o principal suspeito?).
Fica difícil acreditar.Marcadores: caso Isabella Nardoni, psicologia, sherlock holmes, teorias inúteis |