A minha última sexta-feira de folga foi tão ruim que eu me nego a acreditar que ela realmente existiu. A começar pelo fato de que eu acordei com uma ressaca comparável a que os apóstolos tiveram no dia em que Jesus transformou a água em vinho. Também pudera, eu provavelmente bebi pelo ano todo na noite anterior, o que tecnicamente justifica o fato de eu ter acordado ao lado da minha ex-melhor amiga, Felícia. Abri os olhos lentamente, e então vi algo que muito se assemelhava a um sutiã preso pela alça no ventilador de teto, chegando infelizmente à conclusão de que eu havia feito merda. Ainda buscando explicações, não fui, digamos, muito cuidadoso ao tentar acordá-la – a empurrei cama abaixo, fazendo com que ela desferisse a primeira de muitas ofensas que se sucederiam.
Pontos de interrogação pairaram no ar.
- Engraçado. Antigamente, você me acordava com beijos, carícias. E agora tenta me assassinar.
- Desculpe-me. Assustei-me quando olhei para o lado e vi... Você.
- Eu deveria ter escutado os seus conselhos para não ler Kafka. Mas fique despreocupado, voltarei à forma humana em breve.
Liguei o ventilador, fazendo com que o sutiã alçasse vôo livre em direção à janela, que não estava fechada. Felícia lançou-me olhares fulminantes, os quais já me atormentaram muito em outras épocas. Apontou para os próprios seios, depois para mim, e fez então um gesto como se estivesse degolando alguém. Mas não me preocupei, afinal, nenhuma ameaça de morte de terceiros seria páreo para a minha autopunição. Perguntei se queria café, e ela respondeu com o famoso sinal do dedo médio em riste. Dei de ombros e fui tomar banho.
Do banheiro, pude escutar Felícia tecendo alguns comentários pouco elogiosos a meu respeito. Vamos a eles.
“Em relação ao sexo, você deveria agir como um (pausa) cirurgião plástico ou algo do tipo. Não dizem que vários pacientes desistem da cirurgia ao assistirem os vídeos sobre como elas são feitas? Então... Seria mais honesto da sua parte”.
“O que me assusta é como uma pessoa é capaz de ter uma queda tão brusca a respeito do rendimento sexual. O que aconteceu com você?”.
“Agora você só vai encontrar a felicidade quando inventarem o sexo entre marionetes. Ah, esqueci que você é fã de Bob Dylan, logo, a felicidade não consta na sua lista de prioridades. Pelo menos você ainda tem a opção de se masturbar escutando Just Like a Woman”.
Tratei como puro despeito (e de fato era) e me concentrei em um exercício para amenizar a ressaca, o qual usava muito na época do colégio (balançar a cabeça em sinal de negação, três séries de trinta movimentos com intervalos de quinze segundos, durante o banho quente).
Você deve estar se perguntando a razão pela qual eu me referi a Felícia como “ex-melhor amiga” se, em outras épocas, nós costumávamos proceder de uma forma ainda mais avançada do que as diretrizes contemporâneas da amizade propriamente dita entre um homem e uma mulher. Apresento aos senhores duas explicações cabíveis:
a) Eu tenho verdadeiro pavor dos conceitos que as mulheres têm a respeito do tal relacionamento, e chego até a sentir calafrios quando escuto a mulher em questão mencionar essa palavra. Aliás, elas adoram essa palavra, e na maioria das vezes não usam com boas intenções. Relacionamento quase sempre vem acompanhado de discussões infrutíferas acerca das vicissitudes que surgem com o desenrolar dos fatos, se é que me entendem. E isso nunca é bom, sempre termina com cada um virando para o seu lado da cama. A vida dos casais seria muito mais simples se as mulheres parassem de interpretar essa palavra de maneira metafórica e conveniente, ou simplesmente a banissem de seus dicionários.
Portanto, não classifico (e nem poderia) o que tive com Felícia como um relacionamento propriamente dito. Ela era a minha melhor amiga na época e achamos por bem usarmos-nos como estepes, o que eu muito me arrependo. Se eu soubesse que isso me renderia um pequeno e insuportável rebento, isto é, alguns vários reais a menos para gastar, além de uma imagem de irresponsabilidade (insensibilidade, cinismo, maledicência, entre outros adjetivos os quais as mulheres frequentemente recorrem) ante ao meu já reduzido círculo social, eu teria pensado duzentas e vinte nove vezes antes da primeira trepada.
b) De fato, Felícia foi durante muito tempo a minha melhor amiga ou coisa que o valha, e, sinceramente, acho muito bonito da minha parte admitir isso. Afinal, não é tão fácil como parece. É certo que nós combinávamos em muitas coisas, compartilhávamos de um punhado razoável de opiniões e passávamos algum tempo juntos. As brigas eram quase sempre motivadas por fatores como atrasos, por exemplo, ou a minha indiferença em relação aos animais, ou a indiferença dela por música de qualidade. Nada que alimentasse boatos na vizinhança.
Além disso, eu tinha confiança nela. Arriscaria-me até a admitir que fosse a única pessoa na qual confiava. A conversa fluía em sentido bidirecional, o que me deixava a vontade para falar sobre qualquer coisa. Algo inimaginável para uma pessoa tão intimista como eu.
Fui à rua em busca do maldito sutiã, evidentemente sem a certeza de que iria encontrá-lo. Os indivíduos são tão mesquinhos que não fazem diferença entre uma nota de cem reais e uma moeda de um centavo no momento em que surge a oportunidade de se dar bem em situações como essa. Mesmo uma jaca de cem quilos em estado de putrefação não ficará abandonada no meio de uma calçada por muito tempo. O que fiz? Dirige-me ao shopping que fica próximo a minha residência e comprei o sutiã mais barato, e ainda assim por pouco não o dividi em três vezes sem juros.
Felícia reclamou, claro. O sutiã tinha alças de silicone, e eu fui obrigado a escutar uma extensa explanação a respeito do uso de peças íntimas. Não dei resposta alguma, apenas tirei vinte reais do bolso e joguei sobre a cama, o que a deixou para lá de ofendida (não sei por que diabos, diga-se). Concluí com um “fique com o troco” e ela me tacou uma de suas sandálias (em uma inacreditável demonstração de reflexo, consegui esquivar-me). Depois disso, foi embora, praguejando Deus e o mundo.
Enquanto eu tomava o café, vi a palavra “mamãe” no display do celular, que vibrava de uma forma um tanto neurastênica, como quem anunciava o porvir. Descrevo abaixo o diálogo com a minha nem tão querida figura materna.
- Alô? Mãe? O que você quer? – disse ao atender, ainda tossindo por ter me engasgado no momento em que o celular tocou.
- Oi, meu filho! Tudo bom?
- Quase. Podia ser melhor.
- Por que, meu filho? – disse ela, que sempre usava o “meu filho” ao fim de uma frase. Como se quisesse a todo o momento me lembrar da infelicidade de ter sido gerado por ela.
- Longa história. O que a senhora quer? Fala logo, pois não tenho muito tempo.
- Veja bem. Será que você poderia me emprestar uns duzentos e cinqüenta reais, meu filho?
- Para gastar com conhaque e motel? Circulam boatos de que a senhora está fornicando com aquele seu personal trainer, tal de Jerônimo.
A quem interessar possa, minha mãe, Darlene, é uma dessas mulheres de cinqüenta anos que optam pelo balcão do bar e não saem antes da oitava dose de Domec.
- Não, meu filho. Você sabe que eu sou fiel ao seu pai, e vou negar até a morte qualquer acusação de adultério. Necessito dessa grana para presentear a Acidália, que aniversariará na próxima semana. Aliás, não esqueça de dar os parabéns a ela.
- Acidália é aquela que matou o marido?
- Não, essa é a Narcisa. Acidália é aquela que deixava você ver Ultraseven na casa dela, com o seu amiguinho da época, João Rodrigo.
Deixe-me esclarecer algumas coisas. Tanto Narcisa quanto Acidália são, hoje, companheiras de balada da minha mãe. A primeira, de fato, matou o marido ao jogar sobre ele um vaso chinês que pesava mais do que Mao Tsé-Tung em seus últimos meses de vida (não sem antes o entorpecer com soporíferos). Já a outra foi chifrada pelos três maridos que teve, e então resolver virar lésbica. E o tal do João Rodrigo, é bom frisar, não era meu amigo. Na verdade, eu por vezes quis matá-lo, pois ele tinha a errônea idéia de que sabia mais de Ultraseven do que eu. Além disso, diariamente jogava na minha cara que a mãe dele o presenteava com as edições de Sandman, enquanto eu ganhava gibis, no máximo. Em suma, um autêntico filho da puta.
Disse à mamãe que depositaria o dinheiro em sua conta na segunda-feira, já que estava de folga e sem disposição alguma para ir ao banco.
Resolvi ir ao cinema. Quando mais jovem, tinha por hábito ir ao cinema às sextas-feiras, sempre sozinho, afinal esta é uma garantia de que não haverá empecilhos no processo de compreensão do filme em questão (como sempre trabalhei em torno de dez horas por dia, e minhas folgas sempre foram de quinze em quinze dias, tive de abandonar esse hábito). Coloquei minha bermuda azul-marinho que eu não usava fazia uns cinco anos, uma camisa do Corinthians e sandálias do tipo “um bom samaritano”, também conhecidas como papete, e me dirigi ao Estação mais próximo, não sem antes passar em um supermercado a fim de comprar pacotes de doces como jujuba e “delicado” (e também aquele em formato de arcada dentária, cujo nome sinceramente não me recordo). Optei por um filme nacional de nome curioso – “Ursos também amam” –, dirigido por aquele rapaz metido à bicha intelectual. Tudo corria na mais perfeita paz (todos estavam calados, eu consegui pegar a mesma cadeira de sempre, o áudio estava bacana e o filme era até, de certa forma, interessante), até que eu reconheci o protagonista. Sim, era o desprezível João Rodrigo, em seu quarto trabalho no cinema, premiado em Gramado e com convites para estrelar produções de Bollywood. “Mas que azar do caralho”, pensei, “Ter escolhido essa merda de filme, justo hoje!”.
Bom, se me permitem dizer, o filme é algo catastrófico. Há uma tentativa velada de parecer hitchcockniano, que fez miséria em “Os Pássaros”, mas o tiro sai pela culatra. Basicamente, é a história de um veterinário que tem a missão de “recuperar” um urso, de nome Steve, com tendências psicóticas, as quais vêm à tona depois que a sua namorada ursa o troca por um urso pseudo-marombado e três anos mais jovem. Na verdade, a atuação do urso Steve é o fator que salva o filme, que, se dependesse do talento cênico de João Rodrigo, estaria fadado ao verdadeiro fracasso. Enfim, foi a minha vez de praguejar Deus e o mundo.
A constatação de que João Rodrigo se dera bem na vida não me incomodaria tanto se minha mãe não tivesse mencionado o seu nome durante a conversa telefônica já aqui relatada, muito provavelmente. À cabeça, me veio a imagem do referido filho da puta se esbaldando com a sua mais nova edição de Sandman, por exemplo, e me adjetivando como “fracassado” e “invejoso”. Ao voltar para casa, tomei duas doses de Teacher’s com guaraná Jesus e caí no sono mais uma vez. Pensava da seguinte forma: “Da próxima vez que eu acordar, provavelmente, meu dia começará de uma forma menos azarada. Sem Felícia, sem sutiã, sem a mendicância da minha mãe e sem o filho da puta do João Rodrigo”.
Por volta das oito e meia da noite, meu celular tocou. Acalmem-se, no display não constava a palavra “mamãe”. Era o Lauro, um amigo de longa data, que me acompanhava nos fins de semana pelos botequins da vida. Como a noite de sexta-feira caíra rapidamente em um dia típico de verão no Rio de Janeiro, nada mais natural do que receber ligações de beberrões como o Lauro.
- Diga lá, meu caro. Qual é a boa? – disse ele, abdicando do “alô”.
- Fala, Lauro. Ainda não sei, cara.
- Não vá me dizer que você estava dormindo?
- Sim, você acabou de me acordar. Digamos que, em particular, tem sido um dia difícil até então.
- Foi mal por interromper o seu sono, meu caro. E quanto aos problemas e obstáculos da vida, não esquente a cabeça. Apenas beba.
- Claro, você tem razão. Onde você se encontra?
- Adivinhe. Bebendo, ora bolas.
- Mas já?
- Sim, venha para o Bar do Nicolas. Estou aqui com o Amadeu e o Antônio. E ainda teremos a possível presença do companheiro Germano.
- Ok. Chego aí em quarenta minutos, aproximadamente.
Preferi ir de ônibus, afinal por pouco não me envolvi em um acidente automobilístico na noite anterior em função da ingestão de bebidas alcoólicas. Durante o trajeto, uma senhorita de uns vinte e sete anos, com roupas convidativas e um belo par de pernas, sentou-se ao meu lado. No entanto, meu olhar se fixou no entresseio, em uma cena substancialmente engraçada, uma vez que o objeto em questão estava exatamente do meu lado, o que demanda uma inclinação do pescoço e uma dose irremediável de mau caratismo. Quando a moça, já incomodada, levantou-se e dirigiu-se ao assento vago mais próximo, percebi que o ponto em que eu deveria saltar havia ficado para trás. Iniciei, então, uma longa caminhada até o Bar do Nicolas. E lá cheguei por volta das nove e quarenta e cinco da noite.
Lauro bebia sozinho. Germano não aparecera, e a dupla Antônio e Amadeu (assessores de imprensa de uma produtora de filmes pornô) não tirariam folga no dia seguinte. Lauro é o cara mais gente boa do planeta, e também o mais beberrão. Ele é um profundo conhecedor do universo do alcoolismo, mas não chega a ser um alcoólatra propriamente dito. Como o próprio se define, trata-se de um “apreciador de uma das melhores maldições da humanidade”, que não faz questão de esconder o savoir-faire adquirido ao longo dos anos (seja da Köstritzer à Norteña, por exemplo, ou do Bourbon ao Teacher’s, não há bebida que ele não conheça e/ou já tenha tomado). A mesa, povoada por garrafas de Weissbier, já não tinha mais espaço, e Lauro ainda não se encontrava em total estado de embriaguez, o que me animou a também abusar da minha resistência. Tentei acompanhar o ritmo, mas na sétima garrafa eu já estava um tanto cambaleante, e foi aí que emergiu do meu inconsciente a inescrupulosa idéia: “Vou ligar para a Felícia!”.
Quem disse que eu tive coragem? Astuto, Lauro disse apenas “Vá ao banheiro, dê uma mijada, e você voltará com uma outra opinião a respeito dessa possibilidade”. De fato, foi uma mijada de ouro, decerto a melhor mijada da minha vida. Foi como ser contemplado com a sapiência de um anjo da guarda ou algo do tipo, o que muito me aquietou. Concluí que ligar para ela naquela ocasião seria uma atitude infantil, algo que só um adolescente ressentido seria capaz de fazer, e esse definitivamente não é o meu caso, afinal eu tenho um filho com a sacripanta, contas a pagar e uma moral a zelar.
O Bar do Nicolas já estava fechando quando surgiu a idéia de migrar para o Fahrenheit, um desses lugares nos quais você é mal visto se tirar uma filipeta do bolso na hora de pagar a conta. O clima é deveras elitista, as bebidas são caras, a maioria dos freqüentadores provavelmente nunca andou de ônibus, mas pelo menos a música é de qualidade. Ao parar no balcão a fim de estudar as possibilidades alcoólicas, porém, tive uma surpresa desagradável: “mamãe” novamente batia o cartão no display do meu celular. Deixei tocar até que ela desistisse. Foi então que uma voz esganiçada sussurrou em meu ouvido: “Mas que feio! Rejeitando uma ligação da própria mãe!”. Sim, os senhores não estão equivocados, era dona Darlene, acompanhada de um indivíduo de uns trinta e cinco anos, negro, alto, usando terno e gravata.
- Mãe. O que diabos a senhora está fazendo aqui? – perguntei, ainda estupefato.
- Meu filho, meu filho, meu filho... – tentou responder, embaraçando-se nas palavras, visivelmente bêbada.
- A senhora não precisa me lembrar desse fato de cinco em cinco minutos, caralho.
- Vê lá como você fala como a sua mãe! Mas deixe-me apresentar o Jéci, porteiro do prédio em que mora a Narcisa... – disse, com um sorriso cafajeste na boca.
- Sinceramente, dispenso apresentações. E, quer saber, que você e ele apodreçam no inferno – falei, ao mesmo tempo em que apontava para alguma das bebidas na prateleira, a qual sinceramente não lembro. O garçom atendeu prontamente.
- Vamos, Jéci, vamos dançaaarrr... O Aílton não teve um dia bom, né Aílton? Até mais tarde, meu filho.
Sim, eu me chamo Aílton, agora os senhores já sabem. Não pretendia dar essa informação, mas a desgraça da minha mãe fez o trabalho sujo. Agora entendem por que eu a odeio?
Lauro queria rir, evidentemente, mas não o fez por uma questão de ética. Qual seria a próxima tragédia que me aconteceria naquela sexta-feira (na verdade, já era sábado, então, teoricamente, não havia explicações cabíveis para a continuidade do “dia ruim”). Segui o conselho-default de Lauro, “Apenas beba”, e por alguns minutos esqueci de todo o resto. Flertei com uma menina muito bacana, inclusive, mas desisti no momento em que ela me disse ser viúva. Já me preparava para ir embora quando o garçom assoviou em minha direção, piscou um dos olhos como quem tentava dizer “se deu bem, campeão” e me entregou um papel amassado, o qual dizia:
“Hoje eu estou sem sutiã. Aproveita. Beijos, Felícia”.
Não me lembro de muita coisa depois disso. Virei o copo da bebida cujo nome não lembro e, repentinamente, já estava mais uma vez em meu apartamento, novamente com Felícia dormindo ao meu lado. Pelo menos, dessa vez eu me preocupei em ligar o ventilador, para garantir. Afinal, nunca se sabe.Marcadores: alcoólatras e beberrões, contos idiotas, ex-melhor amiga, mães cretinas, um dia ruim |
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