Há cinco anos, Marcel largou uma vida pacata no interior do Paraná em busca de um sonho: produzir road movies. Antes de partir, vendeu a televisão da mãe (uma Telefunken da década de 80) e a torradeira da avó para adquirir a handcam da Tecnomania, conhecida como Tekpix, frequentemente anunciada em programas de fofoca veiculados por algumas emissoras de televisão, principalmente no período vespertino. Começou a filmar já na rodoviária de Maringá, em direção à Curitiba, mas se deu conta de que não conseguiria histórias suficientemente relevantes a bordo de um ônibus comum. Resolveu, então, que iria até São Paulo por meio de carona.
Pegou a BR-116 às seis e meia da manhã de uma quinta-feira, na caçamba da caminhonete de um homem que se identificou como Jacinto, 39 anos, agricultor. Visionário, aceitou prontamente ceder a carona em troca de uma menção nos créditos do road movie. Marcel filmou incansavelmente, preocupando-se com os planos, com a sequencia de imagens, com o enquadramento e os elementos de cada take. No entanto, já distante de Curitiba e com um lingínquo caminho a percorrer até a capital paulista, a bateria acabou. Era o fim do sonho.
Agradeceu a Jacinto pela prestatividade e iniciou a procura por uma bateria compatível (ou mesmo um recarregador) com a Tekpix no município de Jacupiranga, litoral sul de São Paulo, 217 quilômetros da capital. Porém, não obteve sucesso, pois a última grande descoberta tecnológica em Jacupiranga foi o Tamagoshi. O fim de semana chegou e Marcel, já cansado e desiludido com a possibilidade de dar continuidade ao seu road movie, entregou-se à bebida e à libertinagem.
Gastou naquele sábado praticamente todo o dinheiro que levou, com doses e mais doses de Dreher no Bar do Casemiro, ou mesmo uma incursão libidinosa no Bordel da Tereza Navalha.
Acordou na segunda-feira em um banco da praça que fica de frente para o bordel, maltrapilho, sem a sua mochila e a Tekpix (fora roubado durante a noite, muito provavelmente) e com a sensação de que havia sido pisoteado por uma manada de elefantes indianos. A frustração era tanta que fez Marcel beirar à insanidade e, em vez de pedir ajuda para retornar à Curitiba, preocupou-se apenas em beber e praguejar a Tecnomania.
O rapaz foi apelidado pelos frequentadores do Bar do Casemiro como o Kerouac de Jacupiranga. Atualmente, ele tem 29 anos e transita pelas ruas parcialmente asfaltadas do município, proferindo ofensas desconexas contra a Tekpix. Seu sonho é voltar para o Paraná e comprar uma Sony Mini-DV DCRHC52.Marcadores: antes que perguntem, malditos, não é publieditorial |
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