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 Crítica - Spolidoro desmascara a normalidade em Ainda Orangotangos
Dezembro 16, 2008
A logística urbana de uma Porto Alegre heterogênea, marcada por contradições sociais e viscerais regionalismos. Uma obra que agrega valores patrimoniais, em uma exaltação das vicissitudes tipicamente cisplatinas, porém dotada de criticismo acerca dos poros insólitos da contemporaneidade urbana. Muita coisa pode ser falada a respeito de Ainda Orangotangos, do diretor, curta-metragista e professor de cinema Gustavo Spolidoro, gaúcho, colorado e fã do bom e velho rock'n'roll dos pampas.

O longa de estréia da carreira de Spolidoro é também o primeiro filme em plano-seqüência (numa tomada só, sem cortes) feito no Brasil. São 15 histórias que se entrelaçam à medida em que uma noite de verão cai na capital gaúcha, fazendo com que credos, cores, paixões, rancores, decepções e muita rebeldia preencham lacunas assimétricas de um cenário urbano idealizado pelo escritor Paulo Scott, autor do livro homônimo que originou o roteiro do filme, assinado por Gibran Dipp e pelo próprio Spolidoro. Um desafio estético de 81 minutos premiado nos festivais de Milão e Lima, e que passou brevemente pelos cinemas do Rio de Janeiro e São Paulo. Veja a página do filme no MovieMobz.

O filme começa com a morte misteriosa de uma jovem de origem japonesa, que viaja de metrô acompanhada do namorado. Desnorteado, o rapaz clama por ajuda, falando em japonês, sem sucesso. Ele, então, pega a sua mochila e abandona o corpo da namorada no vagão. A câmera o segue até o Mercado Central de Porto Alegre, no qual ele vende um relógio verde para um menino vestido com a camisa do Internacional. A câmera passa então a acompanhar o garoto, que entra em um ônibus e presencia um engraçado diálogo entre duas lésbicas. Uma delas, torcedorera fervorosa do Inter, faz uma analogia bizarra entre o desempenho do clube gaúcho e a visita do papa João Paulo II a Porto Alegre. A conversa é interrompida por um homem vestido de papai noel e aparentemente bêbado, que acaba apanhando da lésbica colorada.

O longa ganha uma sombria intensidade com histórias como a da mulher nua que tem alucinações com pombos. No apartamento ao lado, um homem na faixa etária dos quarenta anos acaba de chegar da balada com a sua jovem namorada rockeira e, na ausência de bebidas alcoolicas, resolvem beber perfume. A câmera segue o quarentão até o momento em que ele cruza com aquele mesmo garotinho vestido com a camisa do Inter, o qual tenta comprar uma aspirina em um pequeno mercado, mas não tem dinheiro para pagar. Em seguida, um aspirante à escritor visivelmente atormentado tenta convencer um idoso a ser o editor de uma obra sobre as 193 espécies de símios existentes já descobertos no planeta.

A câmera segue o velhinho, que é convidado por um jovem vestido de terno para uma festa de 15 anos. Dá-se, então, o desfecho anárquico do filme. Um baile de debutantes de uma garota cuja família é evangélica, mas que foge com o professor de canto, ao som e fúria do punk gaúcho.

Ainda Orangotangos é visceral no sentido de desmascarar a normalidade. Os personagens são indivíduos normais, que não se destacam por especeficidades dramáticas, mas têm em comum a ligação onírica com o que há de mais selvagem na natureza humana (como uma espécie de duelo cognitivo entre a sanidade e a insanidade). Em todos os níveis sociais, culturais e econômicos, Spolidoro mostra por meio de elipses que a capital gaúcha também é pulsante, vivaz, cataclísmica, tal como a maioria dos grandes centros urbanos.

A trilha sonora também é um dos grandes trunfos de Ainda Orangotangos, pois é verdadeiramente inerente ao roteiro, isto é, faz parte da história como um elemento cognitivo. A seleção de músicas conta com clássicos do rock gaúcho e bandas da nova geração. As 16 músicas que compõem a trilha podem ser baixadas neste link. Vale a pena.

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    Bookmark and Share   postado por Hanrrikson de Andrade @ 16.12.08   0 comentários

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