Ninguém precisaria ser gênio para concluir que a vitória de Barack Obama nas eleições presidenciais norte-americanas, confirmada nesta quarta-feira, é importante sob qualquer foco de análise. Não podemos criar expectativas fantasiosas, claro, e achar que o primeiro presidente negro dos Estados Unidos afrouxará a gravata do capitalismo, estabelecerá uma relação amistosa plena com o Oriente Médio, operará um milagre a fim de solucionar a crise econômica, entre outras coisas. Guardadas as devidas proporções, refiro-me à algo muito parecido com o que ocorreu no Brasil, em 2002, quando muitos achavam que o triunfo de Lula e a ascensão do Partido dos Trabalhadores ao cargo máximo do poder executivo agregariam ao país valores socialistas, ou que pelo menos remetessem ao conceito da ruptura sociopolítica e socioeconômica. Não, senhores, não se faz política dessa forma, ainda mais num país heterogêneo, cujo estado de direito possui caráter dicotômico, fisiológico, em uma cultura norteada pela angústia do consumismo e do pré-patriotismo incondicional.
A eleição do candidato democrata, na verdade, tem um duplo viés: uma espécie de arrependimento quanto à reeleição do tragicômico George W. Bush, que conseguiu superar o pai e se consolidar na posição de um dos piores presidentes da história dos EUA; e a necessidade de uma mudança mais ampla, praticamente existencial, na formação ético-moral de cada norte-americano. O conservadorismo, antes tão exaltado, ficou obsoleto e virou até motivo para vergonha, piada e escárnio. Assim, Obama transformou a desconfiança em esperança – teve os votos dos brancos e latinos, tidos como conservadores, e venceu em estados historicamente dominados pelos republicanos, como a Flórida (no total, o democrata venceu em 28 estados; nas eleições de 2004, ao fim da apuração, John Kerry triunfou em apenas 20). Portanto, não é exagero algum dizer que Obama simboliza uma oportunidade de união e integração entre as diferentes facetas do povo norte-americano.
Em relação à política externa, os ganhos são ainda maiores. A vitória de Obama foi praticamente consensual em todo o planeta. Os africanos, por motivos óbvios, estão mais do que simplesmente felizes, estão orgulhosos, pois vêem o candidato democrata como uma espécie de filho, já que seu pai nascera no Quênia e alguns de seus familiares ainda vivem por lá. Na Europa, principalmente em países como a França e a Alemanha, uma maior identificação ideológica, filosófica e política. Já para a América Latina, respeito e valorização, além de uma possível transgressão de antigas picuinhas diplomáticas (como nos casos de Bolívia, Venezuela e Cuba, que até já vivem a expectativa por uma guinada de cento e oitenta graus nas relações com os EUA). No Oriente Médio, chefes de estado também já consideram a possibilidade de uma aproximação política (embora eu considere improvável essa possibilidade). Em suma, desde John Kennedy os Estados Unidos da América não viviam em um clima de tanto entusiasmo com os rumos políticos do país. Bom para eles, bom para o mundo.
Quanto ao Brasil, a vitória de Barack Obama pode não significar um progresso maior do que o esperado em relação ao campo econômico, uma vez que os democratas são famosos por uma postura protecionista e intervencionista, mas creio que o diálogo será muito mais aberto, franco e produtivo do que seria caso John McCain fosse eleito. Não teremos uma imersão imediata do etanol no mercado norte-americano e continuaremos reféns de sua política cambial, claro, mas esse é um panorama que passa por muitos outros fatores, e não depende exclusivamente da eleição de um democrata, um republicano ou quem quer que seja. Conta a nosso favor o diálogo positivo construído em função dos progressos da economia brasileira em escala global (proporcional à gradativa queda do interlocutor), e há condições favoráveis para a continuidade dessa boa relação. Assim espero.Marcadores: barack obama, eleições americanas, estrutura política americana, george w. bush, john mccain, política |
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