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 Quando a arte não deve imitar a vida
Outubro 19, 2008
Para o docudramático cinema brasileiro contemporâneo, este seqüestro em Santo André (o mais longo da história da crônica policial brasileira: quatro dias; 100 horas) será um prato cheio. Não só pela repercussão, resultante de um intenso fluxo de informações, condizente com a lógica da pluralidade midiática (um amigo meu, por exemplo, acompanhou todo o desfecho no ônibus, via IPhone), mas como também por uma típica demonstração da capacidade metamórfica do ser humano a partir da premissa sentimental. Todos os especialistas classificam a motivação do seqüestrador Lindemberg Alves, 22 anos, como “amor” do tipo obsessivo, que trucidou suas unidades racionais e o transportou para um mundo em que valores ético-morais como certo e errado não tem importância alguma. Bobagem. O crime foi premeditado, planejado mesmo que de forma um tanto burra (qual era o seu propósito, afinal?), e o seu comportamento durante e após o seqüestro é digno de um psicopata, de uma pessoa com instinto criminoso, de um ser irrecuperável. (Foto: Reinaldo Marques/Terra)

Não fosse isso, Eloá Cristina Pimentel e Naiara Rodrigues Vieira, ambas de 15 anos, estariam sãs e salvas neste momento. Reitero: qual era o propósito de Lindemberg ao manter a ex-namorada e sua melhor amiga em cárcere por quatro dias? Provavelmente, a sensação de poder referente ao destino de Eloá, isto é, tê-la sob o seu domínio 24 horas por dia, nutria o criminoso, fazia com que ele se sentisse como uma espécie de Deus. Assim, ao constatar que o seu teatrinho desgraçado estava prestes a ruir com a atitude insana da polícia paulista, não pensou duas vezes, tal como qualquer outro psicopata faria: deixou a sua marca, traçou novos rumos para vida das vítimas (e as vitimou, de fato) e se consagrou como o mais novo anti-herói brasileiro (da pior qualidade, diga-se de passagem).

Pensando bem, a narrativa docudramática do seqüestro em Santo André não teria valor algum, pois Lindemberg não tem serventia nem para a figura de anti-herói. Sua história é vazia, suas motivações são tórridas e seu comportamento é um exemplo do quão fraco o ser humano pode ser (Nietzsche o rotularia como “a escória entre as escórias”). A partir de seu ato, nenhuma discussão mais profunda pode ser levantada, exceto pela falta de preparo dos policiais envolvidos no caso. Falar em “amor” é praticamente um desrespeito às vítimas, uma delas que já foi, inclusive, dada como morta pelo próprio governo paulista (enquanto eu escrevia este artigo, pelo menos três jornais online e uma emissora de TV confirmaram a morte cerebral de Eloá). (Foto: Cedoc/RAC)

Veja a cronologia do seqüestro em Santo André. (Fonte: Estadão)

Pois falemos, então, da polêmica envolvendo o Gate (Grupo de Ações Táticas Especiais). A meu ver, são três erros graves: a incompetência dos negociadores, que só fizeram irritar ainda mais o criminoso (não que isso justifique os disparos feitos à queima-roupa contra as vítimas, mas contribuiu para protelar o seqüestro); a re-inserção de um refém no cenário do crime, como objeto de negociação (por mais que fosse de sua vontade e com autorização dos pais, tratava-se de um menor e o Estatuto da Criança e do Adolescente proíbe esse tipo de conduta); e, por fim, o plano de invasão (mal concebido e executado). Segundo os especialistas, uma invasão é sempre a última opção e só deve ser feita em momentos de distração do seqüestrador (durante a madrugada, por exemplo, já que Lindemberg certamente dormira em algum momento). Além disso, ainda podemos contabilizar na conta da polícia e do estado a omissão quanto ao uso de atiradores de elite, que passou a ser a opção mais viável no momento em que as negociações emperraram.

Em relação à questão das negociações, aliás, é bom deixar claro: elas são evidentemente dificultadas a partir do momento em que a motivação do criminoso não é financeira (e que ele se mostra disposto a vitimar os reféns, usando frases como “Eu não tenho nada a perder”). No entanto, é tão evidente quanto que o trabalho da polícia não fora bem feito, incluindo falhas técnicas, omissão e precipitação. Eu não estou discutindo as circunstâncias psicológicas nas quais se encontravam os policiais, e me parece óbvio que eles fariam o máximo para resgatar as adolescentes, sem maiores estragos. Mas, no fim das contas, não obtiveram sucesso e devem ser criticados por isso. E ainda usaram justificativas questionáveis para reafirmar as opções que fizeram; como a dos supostos disparos antes da invasão (a BandNews acaba de veicular a seguinte matéria: "Peritos constatam que não houve tiros antes da invasão"). Fatos que corroboram a tese de que vivemos em uma era de insegurança coletiva e generalizada – até mesmo aqueles que deveriam nos proteger se sentem inseguros, em todos os sentidos. (Foto: Portal Terra)

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    Bookmark and Share   postado por Hanrrikson de Andrade @ 19.10.08   0 comentários

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