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 Paes nem assumiu e já descumpriu três promessas de campanha
Outubro 29, 2008
A vitória de Eduardo Paes (PMDB) não chega a ser uma tragédia para o Rio de Janeiro. Digo isso considerando dois aspectos: a provável reinserção da segunda maior cidade do país no cenário político nacional (pelo menos até 2010), o que garante, a priori, condições favoráveis ao recebimento de recursos provenientes da União; e a guinada de cento e oitenta graus que acometeu o processo eleitoral deste ano, cujo desfecho foi uma emocionante disputa no segundo turno entre dois candidatos que não estavam tão bem cotados nas primeiras pesquisas de opinião - vale a pena lembrar que, no início do ano, a Cidade Maravilhosa vivia sob a ameaça de uma possível eleição do senador e bispo Marcelo Crivella (PRB), ligado ao clã político da Igreja Universal.

No entanto, é de se lamentar que a população carioca tenha desperdiçado a chance de experimentar um novo formato de gestão pública, ainda que praticado por um político de 67 anos. Fernando Gabeira (PV) não significava A SOLUÇÃO DEFINITIVA para todos os problemas do Rio, é bom deixar claro. O candidato verde, na verdade, simbolizava o rompimento (pelo menos ideológico) com a burocracia e o assistencialismo, que transformaram o Rio em uma verdadeira plataforma política.

Sinceramente, não vejo avanço algum em relação à votação expressiva (50 mil) de Gabeira, que provavelmente teria triunfado não fossem as polêmicas do segundo turno (causadas por erros do próprio candidato), os tais panfletos apócrifos do adversário e o adiantamento do feriado. Muito pelo contrário: a sociedade carioca não se mostrou apta a um modelo de gestão que combatia o continuísmo, isto é, fez uma opção conservadora, elegendo para a Prefeitura um político que é exatamente IGUAL aos que por lá passaram nas últimas décadas. O mesmo discurso, os mesmos trejeitos, as mesmas estratégias de campanha... Enfim, continuaremos reféns das medidas paliativas, das maquiagens estruturais e da ausência de investimentos na cultura.

Falemos então do futuro da cidade, uma vez que os motivos mais perniciosos pelos quais Gabeira perdera já foram discutidos à exaustão desde domingo. Eduardo Paes governará para uma cidade politicamente rachada. Ele, que fez exatamente OITENTA e TRÊS promessas durante a campanha eleitoral, contará com a tendência à antipatia de pelo menos 50 mil pessoas, e regiões da cidade praticamente em sua totalidade, como a Zona Sul, a Norte e boa parte do Centro. Um dia após a eleição, o novo prefeito já descumpriu três promessas que fez durante o processo eleitoral: nomeou o tucano Pedro Paulo Carvalho, seu fiel escudeiro, para a pasta da Casa Civil (Paes havia prometido que a primeira nomeação seria para a Secretaria de Saúde, a fim de não perder tempo na luta contra a dengue); já arquiteta junto aos aliados a ocupação política da máquina administrativa; e, por fim, as primeiras Unidades de Pronto Atendimento 24 horas (projeto que usou como se dele fosse), as quais Paes prometeu para os moradores do Méier e de Madureira (Zona Norte), serão instaladas na Zona Oeste, conforme anunciou nesta segunda-feira. Curiosamente, essa região foi o grande reduto eleitoral do novo prefeito. Já na Zona Norte, Gabeira foi vencedor.

Muitos moradores das áreas mais carentes da Zona Oeste, aliás, só votaram no candidato peemedebista por conta das polêmicas declarações de Gabeira, que em conversa particular ao telefone chamou a vereadora Lucinha de "analfabeta política" e "suburbana". Afinal, não há sentido algum agregar a imagem do "pobretão" a Eduardo Paes, que foi aluno da PUC e passou toda a sua vida entre a Zona Sul e Barra da Tijuca, bairro no qual reside atualmente. Ou seja, acredito que pelo menos 65% do total de eleitores não têm a verdadeira convicção de que Paes é a melhor escolha para a Prefeitura. Passado o embate eleitoral e esquecidas as polêmicas de Gabeira, a tendência é a de que o apoio das regiões mais carentes se transforme em insatisfação. Se considerarmos os 20% de abstenção, o índice de incerteza deve crescer ainda mais.

Há ainda algumas teorias que surgiram durante o processo eleitoral e com as quais terá que lidar, como, por exemplo, a idéia de que Paes seria o candidato das milícias (grupos paramilitares que dominam muitas favelas do Rio), que ficou ainda mais forte com os panfletos apócrifos e o apoio de políticos como Jorge Babu (PT); a de que ele poderá trocar de partido a qualquer momento, como já muito fez em sua carreira política; ou a de que ele vai acabar com o transporte alternativo no Rio, feito por vans e kombis cooperativadas.

Qual deve ser, então, o maior erro de Paes em seu primeiro ano de governo? A resposta é fácil: estabelecer prioridades do ponto de vista geográfico e motivar ainda mais esse racha político já existente. O que fazer para não errar nesse sentido? Estudar as singularidades de cada região do município e instrumentalizar propostas abrangentes, porém em sintonia com o perfil de cada cidadão e, naturalmente, de sua comunidade. Afinal, problemáticas como a educação, o trabalho e a saúde são consideradas "mestres", isto é, estão presentes em toda a cidade, em níveis distintos, independentemente do aspecto socioeconômico. Uma cidade como o Rio necessita de soluções para a doença, não os sintomas.

Paes, como político perspicaz que é, sabe que o apoio (ou a muleta) da popularidade de Lula e do governo meia boca de Sérgio Cabral não serão o bastante para que ele caia nas graças do povo.

Meu palpite: sua administração será exatamente IGUAL à do antecessor, César Maia.

FILHA DE ELBRICK APOIOU GABEIRA. Even Valerie Elbrick, filha de Charles Elbrick, ex-embaixador americano seqüestrado por um grupo de guerrilha, do qual Gabeira fazia parte, durante visita ao Brasil na década de 60, foi a personagem de uma excelente reportagem do New York Times, veiculada em 25 de outubro. Com o título de "Ex-estudante radical na disputa pela Prefeitura do Rio", o jornal classifica o brasileiro como um "respeitado escritor e congressista", e traz como curiosidade o apoio de Evan Elbrick à candidatura de Gabeira. "Ele é um homem encantador, e se eu não estivesse trabalhando por Obama provavelmente estaria trabalhando por Gabeira”, disse ela. "Eles eram pessoas idealistas. Meu pai se deu conta que não estava lidando com bandidos. Eram jovens inteligentes que, no fundo do coração, eram gente pacífica”, finalizou.

Em tempo: melhor pauta de todo o processo eleitoral do RJ.

TALENTO DESPERDIÇADO. O governo do ainda prefeito César Maia é passível de algumas discussões. Seu primeiro mandato foi muito bom, principalmente no que diz respeito à lógica estrutural da cidade. No entanto, o segundo mandato foi levado em tom quase fúnebre e ele está prestes a se despedir da Prefeitura com um alcance eleitoral menor do que tinha em 2004. Solange Amaral (DEM), candidata apoiada por ele nestas eleições, foi uma mera figurante - diferentemente do que já ocorrera em outras épocas (o próprio Paes, por exemplo, é cria de César Maia). Se as coisas não vão bem na vida política, o mesmo não pode ser dito enquanto blogueiro. Pois é. Poucos sabem, mas César Maia posta diariamente no seu Ex-Blog - Notícias publicadas, não-publicadas e comentadas. Li quase todo o arquivo do blog e a sua qualidade para tal fim é indiscutível. Durante o processo eleitoral, Maia esteve mais inspirado do que nunca. Abaixo transcrevo um post do dia 10 de outubro, no qual ironiza a carta de desculpas enviada por Eduardo Paes ao presidente Lula e sua esposa.

CENA EXPLÍCITA DE HIPOCRISIA!

Jornal da Noite do SBT informou que Dudu -upa-upa-24h- escreveu uma carta a Lula pedindo desculpas por tê-lo ofendido na CPI dos Correios, do mensalão. Em primeira mão, este Ex-Blog revela o conteúdo da carta.

"Estimado Titio Lula,

Receba esta cartinha que expressa bem o que é o meu caráter. As seis vezes que mudei de partido são prova de minha instabilidade emocional. Foi por esta instabilidade emocional que falei o que falei a seu respeito, Titio, na CPI do mensalão. Quero jurar de pés juntos que não acho mais que você é chefe da quadrilha que operava o mensalão. Se foi, Titio, tenho certeza que você se arrependeu e nunca mais será chefe da quadrilha do mensalão. Deixo aqui meus votos (leia bem, Titio, votos) de que tudo esteja indo bem com você e com o Lulinha, seu filhinho que acusei de fazer negociata com empresa de telefonia. Tenho a certeza que ele não fará mais.

De seu arrependido sobrinho,
Dudu -upa-upa."

Sensacional, não? Um verdadeiro talento escondido nas profundezas da blogosfera brasileira.

ouvindo: Thaís Gulin - De Boteco em Boteco

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    Bookmark and Share   postado por Hanrrikson de Andrade @ 29.10.08   0 comentários

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