Uma das seções que mais gosto na Piauí é a tipos brasileiros, espaço destinado a crônicas sobre os mais variados perfis e traços culturais deste povo, independentemente de aspectos como classe social ou nível informacional. Desde as donas de casa que perpetuam a arte de ouvir um bom disco de vinil até os fanfarrões da meia idade, passando pelos jovens saudáveis que povoam a Orla do Rio de Janeiro ou os que vendem balas nos trens da Supervia por volta das seis horas de cada manhã. Do sátiro trocadilhista ao conaisseur – os meus prediletos. A edição de agosto (ainda não consegui comprar a desse mês), por exemplo, traz uma excelente e irônica análise do jornalista Marcos Caetano (aquele mesmo, da ESPN) a respeito do machista pós-machismo. Vale a pena conferir.
Ontem, enquanto desfrutava das belezas do Alto da Boa Vista, durante o trajeto até a Barra da Tijuca, via 234 (Rodoviária-Barra), e com a publicação supracitada em minhas mãos, pensei: quais seriam os tipos brasileiros provenientes da internet? Devemos considerar que o conceito de inclusão digital, na verdade, dera apenas um primeiro passo, uma vez que menos de 40% da população brasileira tem acesso à mídia eletrônica. Portanto, além das especificidades, das peculiaridades, é fundamental considerar o aspecto socioeconômico. Não há personagens genuinamente popularescos, o que favorece a consolidação de estereótipos variados, num ambiente comunicacional amplo e de múltiplas possibilidades. Nesse sentido, creio que um dos perfis mais singulares da internet brasileira, hoje, é o do blogueiro.
Afinal, uma parcela significativa dos internautas brasileiros que se propõem a blogar, isto é, manter uma página virtual atualizada constantemente, com conteúdo irrestrito (desde que respeitados os princípios da ética e as leis de Copyright, Creative Commons etc.) e sob a perspectiva da interatividade, o faz a partir de uma filosofia substancialmente empresarial, sem muitas vezes saber disso. Cada vez mais o blogueiro tipicamente brasileiro se organiza no sentido de angariar recursos. Uma das palavras em voga neste meio é a monetização. Mas quantos tinham a noção exata de que os grandes portais, as páginas virtuais mais acessadas, hegemonicamente, mantêm-se através da publicidade? Provavelmente, só os que cursaram a faculdade de Jornalismo. Com a popularização virtual dessa nova ferramenta, auxiliada por uma série de outros mecanismos de interação e sociabilidade, os blogs viraram sinônimo de empreendimento.
Além disso, é crescente o número de adeptos de ferramentas como o Google AdSense e o AdWords. Muitos controlam o tráfego de visitantes por meio do Google Analytics ou do FeedBurner, que também oferece o serviço de RSS. Uns 90% utilizam o Twitter, o Del.ici.ous, o Technorati, o Blip.fm, entre outras redes sociais e de compartilhamento que viraram febre na chamada Blogosfera. Chegamos ao ponto em que blogueiros deixaram de ser pessoas comuns, que caminham pela Avenida Rio Branco ou pela Avenida Paulista com a certeza do anonimato; o filosófo francês Edgar Morin, inclusive, já poderia incluí-los em sua seleta lista de Olimpianos, sem exagero algum. Eventos como o BlogCamp já acontecem em vários estados, promovendo a interação entre os blogueiros famosos e os desconhecidos. A par disso, as empresas cada vez mais apostam no tal marketing viral, nos posts patrocinados e em outras formas de divulgação. E até tentam pegar uma carona na popularidade que alguns conquistaram em todo esse tempo, como fez a AbrilBlogs recentemente (acabou sofrendo um verdadeiro linchamento moral ao sugerir que blogueiros trabalhassem de graça para a empresa).Marcadores: blogosfera, blogueiros brasileiros, empreendedorismo, revista piauí |
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