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 Em geral, mulher argentina é chave de cadeia
Setembro 04, 2008
Está na Piauí de agosto, com o título de "Um ofício meio esquisito", reportagem que reproduz o cotidiano de um detetive particular do Rio de Janeiro. O rapaz, 35 anos, trabalha há catorze no ramo e gerencia a Detetive RJ.net - Agência de Detetives do Rio de Janeiro, umas das mais conhecidas por aqui. Fatura, em média, quinze mil reais mensais com investigação de fidelidade conjugal, pessoas desaparecidas e filhos com suspeita de uso de drogas, além de outros serviços. Num dos capítulos, datado do dia 8 de julho, ele revela que, com uma rápida consulta à internet, qualquer pessoa pode encontrar até 300 cursos diferentes para formação de detetives (todos ilegais, diga-se). Tal afirmação fez com que o meu bom senso tirasse umas férias forçadas. Antes mesmo do fim do expediente, iniciei uma varredura por Google, Cadê e afins. Queria algo que não causasse depressão à minha conta bancária e que me garantisse um diploma ao fim da atividade. Não demorei a achar.

O escritório da Lupa Investigações fica na Avenida Ataulfo de Paiva, Leblon, Zona Sul do Rio de Janeiro. Peguei o ônibus 175, na Barra da Tijuca, via Orla, e lá cheguei pontualmente às 13h30min. De acordo com o proprietário, o qual será chamado de Matias, a Lupa Investigações é uma exceção. A maioria das agências está localizada no Subúrbio e na Baixada Fluminense. "Não dá na pinta", diz ele. Matias é um sujeito encorpado, olhos castanhos e cabelo crespo, que aparenta já estar na faixa dos quarenta anos. Trabalha com a esposa, Glória, que cuida das coisas no escritório. "A melhor coisa de trabalhar com ela é que não gasto dinheiro com secretária" provoca antes de ser firmemente repreendido com os olhares fulminantes da mulher. O curso dura quinze dias, com três aulas semanais (segundas, quartas e sextas); uma hora e meia cada. Os alunos mais interessados ainda podem freqüentar as aulas especiais – aos sábados, sempre às oito da manhã.

Conversei por quinze minutos com Matias, o que foi o bastante para me fazer desistir da empreitada. Ele confessou que 90% das aulas eram em Microsoft Powerpoint e eu, particularmente, sinto ódio mortal por aulas em ppt. Durmo, sempre. É mais forte do que eu. Na maioria das vezes, a disciplina é lecionada por professores que apenas repetem integralmente tudo o que está escrito nos malditos slides. Além disso, o valor não estava tão em conta. São trezentos reais divididos em até três vezes e 50 reais para a confecção do diploma. "O chopp pós-formatura é por minha conta" disse ele, com um sorriso amarelo no rosto, a fim de me convencer. Tudo bem, confesso que minha atração por cerveja e derivados está na mesma proporção que a de um macaco por bananas. Mas eu não sou tão alcoólatra assim. Pelo menos, não ainda.

A visita à Lupa Investigações só não foi totalmente inútil por conta de um episódio pitoresco que lá aconteceu, no momento em que eu conversava com Matias, e é isso o que eu gostaria de compartilhar com os senhores. O relógio marcava 13h39min no momento que a porta se abrira lentamente, produzindo um ruído comparável ao de um recém-nascido obrigado a escutar a Banda Calypso após o parimento. Vestindo um casaco cor de creme, jeans e óculos escuros, entrara uma detetive prestadora de serviços autônomos para a agência (são onze no total, dos quais sete mulheres). Colocou sua bolsa sobre o sofá prostrado ao lado de um armário velho, porém muito simpático. Pegou um café, acendeu um cigarro e puxou assunto com Glória. Ainda não tínhamos trocado olhares. Matias, após interromper nossa conversa em virtude de um telefone, a chamou um tanto eufórico. “Esse caso é a sua cara, Júlia. E ainda vai nos garantir uma bolada”. Ela respondeu com uma piscadela com o olho esquerdo e um trago de seu Marlboro Light.

Dispensemos as tergiversações, os subterfúgios, e vamos direto ao ponto: Júlia é a mais recente das minhas várias ex-namoradas. Não gosto de tocar nesse assunto, mas não é difícil chegar a essa conclusão: tenho facilidade para conquistar as mulheres, mas muitas dificuldades em mantê-las. Geralmente, duas semanas são o suficiente para a imersão em um ódio mútuo. Com Júlia foi diferente. Foram três semanas e meia de resistência pacífica, ou Satyagraha, como prefere o Departamento de Transliteração da Polícia Federal. Até que eu tive a oportunidade de viajar para Curitiba, a trabalho, e não a avisei. Na discussão que se transformou rapidamente em término desse pseudo-namoro, levada em tom wagneriano após o meu regresso ao Rio de Janeiro, ela confessou que passou todo o fim de semana estourando bolinhas de plástico a fim de desconsiderar a minha insopitável demonstração de egoísmo. Antes que vocês perguntem; sim, eu desliguei o celular. E sim, eu não queria que ela me acompanhasse. Por razões óbvias.

Tal como era óbvio que ela não me perdoaria pela pulada de cerca. Burro eu fui de não ter apagado as fotos tiradas durante visita ao Parque Tanguá, na companhia de uma argentina torcedora do Corinthians. Sem o menor esboço de cinismo da minha parte, acho que Júlia deveria ter me perdoado. No duro. A começar pelo fato de que a argentina é linda. E ainda torce pro Corinthians. Pena que o Alvinegro do Parque São Jorge não enfrentou o Paraná neste fim de semana, pois o Estádio Durival de Britto fica bem próximo ao local no qual me hospedei. Lembro-me que Júlia por pouco não quebrou a minha Sony Cybershot ao ver as fotos. Fora de si, ela proferia uma série de ameaças contra os objetos quebráveis do meu quarto, como se estes tivessem alguma culpa pelo ocorrido. Pedi que ela se acalmasse e então ofereci a minha face esquerda, dando-lhe a opção que os senhores, pessoas espertas, já devem ter sacado. Ela aceitou o troca-troca. Antes um puta vermelhão no rosto do que um prejuízo material incalculável.

Voltemos ao quarto andar do prédio Condessa Abigail das Plumas, apartamento 405, no Leblon. Júlia interrompeu a prosa com Glória e caminhou em minha direção – na verdade, a encontro de Matias, que passaria as informações referentes ao caso que ela deveria investigar. Refugiei os olhares num quadro antigo, acima do armário velho, porém simpático (não me pareceu famoso. Certamente era a principal obra de algum louco influenciado pelo cubismo, que resolveu transformar tabuleiros de xadrez em discos voadores, arrematado num leilão de artes para empresários em estágio falimentar pela bagatela de 49,99). A agora detetive (desde quando ela trocou a engenharia de produção pelo mundo da investigação?) fez algumas anotações, guardou números de telefone no seu Sony Ericsson W980i, e deixou o escritório como se nada tivesse acontecido.

Aliviado, agradeci ao casal Matias e Glória pela atenção e cortesia com a qual fui tratado e também deixei o escritório. Desci as escadas rapidamente, afinal, tinha uma pauta marcada para às 16h30min. Ao pisar na calçada, Júlia me espreitou. “O que você está fazendo aqui?”, perguntou ela. “Quer dizer que agora você é detetive particular?”, indaguei. “Culpa sua. Mas isso não vem ao caso e também não é da sua conta. Como diabos você descobriu que eu estaria aqui?”, perguntou ela, entregando-me a sua bolsa. Em seguida, completou: “Anda, leve a minha bolsa, está pesada. Eu te pago um café ali na Casa do Pão de Queijo e você me diz como fez para descobrir que eu estaria aqui, ok?”. Ela sempre fora folgada por natureza e isso nem me incomodava há tempos atrás. Mas ela tinha progredido rapidamente nesse sentido. Eu estava assustado, se vocês querem saber a verdade. Mas acabei aceitando e relatei as razões pelas quais eu tinha ido à Lupa Investigações. Estranhamente, ela foi tomada por uma nítida sensação de alívio. Acho que estava preocupada, imaginando que eu também estivesse desempenhando a função de detetive e cumprindo ordens de um adúltero qualquer que ela desmascarara. Talvez isso explique até o café pago por ela.

Conversamos por vinte minutos. Foi o suficiente, eu diria, para que me apaixonasse novamente por Júlia. Nesse instante único e especial eu seria capaz de rejeitar a argentina torcedora do Corinthians, ainda que Júlia fosse são-paulina (felizmente ela não curte futebol). Mas ela foi embora, muito provavelmente iniciar o processo de investigação do caso que era a cara dela, segundo Matias. À noite, depois de duas externas e de adiantar boa parte do material de domingo, resolvi ligar para ela, sem compromisso. Ela disse que se encontraria com uma amiga, às dez da noite, na Chopperia Brazooka, na Avenida Mem de Sá, próximo aos Arcos da Lapa. Rumei para lá às dez e quinze e, considerando o trânsito costumeiro da Rua Riachuelo, nas proximidades do Clube Democráticos e da Sinuca da Lapa, e uma parada para reabastecer, devo ter chegado por volta de dez e trinta e cinco. De fato, ela estava com uma amiga – o que não chegava a ser preocupante, uma vez que 99% das amigas de Júlia são bem resolvidas nesse sentido – sentada numa mesa no terceiro andar do recinto. Ainda na calçada da Avenida Mem de Sá, comprando chicletes Trident em um ambulante, acenei com a mão para que ela me visse. Subi os degraus de dois em dois até o terceiro andar. Pedi um chopp escuro e Júlia solicitou duas doses de Hi-Fi, para ela e a amiga. Até que o garçom retornasse foram quarenta segundos de algum silêncio, evidências de constrangimento, busca por assuntos comuns a todos os presentes e tragos intercalados entre o meu Hollywood Blend e o Marlboro Light delas.

A primeira palavra que saiu da boca da amiga de Júlia foi como um leve e peralta tapa na minha nuca, daquele que uma criança mais espevitada dá no seu pequeno amigo que cortara o cabelo com máquina dois. Mas, acalmem-se, ainda não era a ocasião para culminar num traumatismo craniano e, posteriormente, no açoite do anjo da morte. Sua primeira palavra, na verdade, foi o próprio nome. “Florença”. O problema não era o conteúdo e sim a forma. Era o código, não a mensagem. Lembro-me perfeitamente daquele castelhano acentuado substituindo o “ç” pelo “z”. “Husted és argentina?” perguntei, abusando do direito de não saber falar bulhufas em espanhol. “Sí”, ela respondeu. Fiquei ligeiramente trêmulo assim que Júlia colocou a sua mão esquerda sobre a mão direita da amiga, acariciando-a. Elas se recostavam na cadeira, aproximando os seus corpos na medida em que eu me aproximava da consternação. Não agüentei e joguei a toalha. “Desculpem pela inconveniência, mas... Vocês são mais do que amigas, certo?”, indaguei, olhando para o meu chopp preto, que estava intacto há uns cinco ou seis minutos. “Não é tão difícil descobrir”, respondeu Julia, sorrindo. A única coisa que eu pedia a Deus nesse momento é que a tal argentina não fosse corintiana. Nem torcedora do River Plate, naturalmente, porque isso faria com o que meu ódio em potencial prescindisse das circunstâncias aqui relatadas.

Florença, na verdade, era torcedora do Huracán. E era uma simpatizante do futebol de Carlos Tévez, um dos ídolos da história recente do Corinthians e hoje no Manchester United. Ganhou alguns pontos comigo por conta disso. Fiz o máximo para conversar com ela, apesar das limitações lingüísticas, e descobri que ela já publicara dois livros e que buscava em solo brasileiro histórias interessantes para um terceiro; que desejava residir na Europa por algum tempo antes de regressar à Argentina e consolidar a sua carreira como escritora. Eu posso até imaginar o que os senhores estão pensando. Não, eu não cheguei a dar em cima dela, porque Júlia foi precavida. Disse que precisava trabalhar cedo no dia seguinte e praticamente intimou Florença a acompanhá-la – a argentina não queria, eu posso garantir (he, he). De qualquer forma, o fim dessa noite foi parecido com o fim de várias outras noites anteriores. Por volta de cinco e trinta e seis da manhã, eu estava sentado em um banco de plástico pertencente a uma dessas vans que vendem sanduíches, com um cachorro-quente em uma das mãos e uma lata de Bohemia na outra, assistindo ao Telecurso 2000 numa televisão de catorze polegadas, cuja antena não funcionava direito. E pensando: “Juro que nunca mais me envolvo com argentinas”.

Leia também a crítica do filme O Mistério do Samba, de Carol Jabor e Lula Buarque de Hollanda, com produção de Marisa Monte, em Aforismo [EM CARTAZ]. E, claro, o http://twitter.com/hanrrikson

-ouvindo- The Shins \ Pam Berry

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