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CRONOLOGIA TEXTOS MEMORÁVEIS
 Desbravando Lesbos - O desfecho
@ Hanrrikson de Andrade
NO RIO DE JANEIRO
Agosto 28, 2008
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21/JUN/200810h12min – Após um breve cochilo frente ao laptop, acordei ainda há pouco com aquela ótima sensação de trabalho finalizado. A madrugada foi longa – horas e horas de trabalho ininterrupto – e só vim a ceder ao sono por volta das nove e meia da manhã deste sábado (21). O artigo, enfim, ficou pronto: três laudas, tal como me foi pedido. E ainda tenho um inteiro para desfrutar da companhia de Tina. O que mais eu poderia desejar?

Não entendeu nada? Leia os três relatos anteriores aqui, aqui e aqui.

21/JUN/200817h20min – Em sinal de agradecimento a Dona Yonassis pela exímia hospitalidade com a qual fui recebido, resolvi colocar a mão no bolso e almoçar no albergue. A gastronomia local, aliás, é essencialmente baseada em frutos do mar. O prato do dia era peixe cozido – cujo nome em grego não consegui compreender – com molho de alcaparra, acompanhado do tradicional ouzo. Uma boa pedida, afinal.

Em seguida, dirigi-me à residência de Tina e de sua mãe, a costureira Acidália, a qual foi meio difícil encontrar (Mitilene, no que diz respeito à estrutura urbana, se parece com Salvador: um sem número de vielas, becos e ladeiras compactas, sempre com o horizonte cerúleo dividindo a paisagem paradisíaca. No entanto, em Lesbos você não vai encontrar quilos de lixo por metro quadrado nem sofrer com o desagradável cheiro de urina exalante das calçadas). Tomamos um café em sua casa e depois ela me levou para conhecer a Floresta Petrificada, em Eresos, um dos principais pontos turísticos da ilha. Foi então que resolvi abrir o jogo.

Antes de tudo, sejamos sinceros: eu não podia voltar para o Brasil sem contar a verdade para ela e, evidentemente, publicar o artigo sem o seu consentimento. Tina foi a minha fonte crucial e, a todo o momento, deixou claro que tinha a mais absoluta confiança na minha pessoa. Mas ao revelar o sórdido segredo eu correria dois riscos: a raiva que ela sentiria por mim, compreensivelmente inevitável, e a negação de tudo o que me dissera até então a respeito do Mulheres de Fibra. Em outras palavras, estava prestes a me ferrar tanto no âmbito pessoal como no profissional.

Paramos em uma pequena praça próxima a entrada para a Floresta Petrificada. Ela me pediu um cigarro e eu, visivelmente aflito, por pouco não destruí o maço ao tentar abri-lo. Tina, que não é burra nem nada, não demorou em reparar a minha lividez e notória insegurança.

– O que há com você? Está pálido... – questionou ela, colocando a mão sobre a minha face esquerda.

– Preciso te falar uma coisa... – respondi.

– Pois diga – disse ela.

Tirei da mochila uma versão impressa do artigo que escrevera durante a madrugada. Ela leu, pacientemente, e até chegou a rir em determinados momentos, deixando-me ainda mais confuso.

– Do que você está rindo – interpelei.

– Suas descrições são engraçadas – respondeu ela, ingênua.

– Veja bem, eu sou um jornalista e não pesquisador. Estou aqui para escrever um artigo sobre a insatisfação das mulheres naturais de Lesbos quanto ao uso da palavra lésbica, sobre o Mulheres de Fibra e tudo o mais... E você, invariavelmente, acabou sendo a minha principal fonte. Bom, no começo...

– Então você me enganou? – interrompeu-me.

– Não exatamente. No começo, confesso, eu te encarava como uma simples fonte que poderia fornecer informações preciosas a respeito do MDF. Era o que importava, somente. Mas eu... (pausa) É complicado...

– Por que você não vai direto ao ponto?

– Bom, eu acho que acabei me apaixonando por você. Essa é a verdade. E passei a me sentir extremamente mal por ter omitido as razões pelas quais vim para Lesbos – falei, respirando fundo em seguida.

Ela nitidamente não sabia o que dizer. E acabou não dizendo nada, no fim das contas. Apenas tossiu e perguntou se já não estava na hora de conhecer a Floresta Petrificada. Não consegui captar o simbolismo da reação, mas estava inerte o bastante para não empurrar a situação com a barriga. A caminhada pela Floresta Petrificada se deu em tom fúnebre – poucas palavras, aroma de constrangimento e uma recíproca vontade de sumir. Por um momento desejei não ter conhecido àquela mulher tão incrível.

Voltamos para Mitilene e dessa vez fiz questão de descer num ponto de ônibus – cada segundo perto dela era como uma sessão de tortura. Ela não entendeu muito bem, mas aceitou.

– Volto para o Brasil na madrugada de hoje e gostaria de vê-la à noite, talvez no Ômega-Sigma ou em qualquer outro lugar que for de sua preferência. Espero não ter deixado de ser uma boa companhia – disse, antes de sair do carro.

– Eu te ligo – limitou-se a dizer, sem esboçar qualquer tipo de expressão facial.

21/JUN/200819h46min – Já são quase oito horas da noite e Tina ainda não me ligou. Será ela que não vai querer me encontrar nesta noite e eu terei de voltar para o Brasil sem me despedir? Será que ela não vai querer, posteriormente, trocar e-mails, cartas, e talvez um dia conhecer o Rio de Janeiro? Faço-me milhões de perguntas em virtude dessa voraz ansiedade iniciada desde o momento em que cheguei ao albergue. Nunca fui fã do ato de esperar – muito pelo contrário – e, nesse caso, a situação é ainda mais grave. Todos os meus pensamentos foram misteriosamente bloqueados.

Você deve estar se perguntando: por que o idiota não toma iniciativa e telefona para ela?

Pois eu cheguei a tentar, inclusive. Mas me enrolei com os inúmeros códigos de área e acabei desistindo.

21/JUN/20081h52min – Depois de várias tentativas frustradas, finalmente disquei corretamente os códigos de área e consegui telefonar para Tina – isso aconteceu por volta das oito e vinte da noite (já não tinha mais calmante e cogitava a possibilidade de apelar para a aspirina). Ela atendeu com uma voz sorumbática, mas me pareceu disposta a dialogar. Combinamos de nos encontrar no Ômega-Sigma às nove horas. Antes de desligar, ela proferiu um discurso breve sobre princípios éticos e sobre como ela havia me xingado após chegar a sua residência e se trancar no quarto, o que, naturalmente, fez com que eu me sentisse ainda pior.

Tive alguns minutos para pensar em algo que fosse surpreendê-la antes de começar a me arrumar. Algo que não parecesse brega, claro, mas que arrancasse um sorriso singelo, uma demonstração de afeição ou qualquer coisa que aliviasse um pouco a minha barra. Optei por bombons recheados (estava ciente de que se tratava de um clichê, mas não havia tempo hábil para coisa melhor). Cheguei ao Ômega-Sigma dez minutos antes do combinado e escolhi a mesma mesa na qual nós conversamos pela primeira vez. Dessa vez ela, tecnicamente, não se atrasou: chegou às nove horas e um minuto. Estava mais bela do que nunca.

Dei a caixa de bombons, sem dizer nada, e ela sorriu em sinal de agradecimento. Ficamos em silêncio por uns dois ou três minutos até que eu solicitei ao garçom duas long necks de Durvel. Em seguida, sentenciei:

– Não vou mais publicar o artigo. Já me decidi.

Ela me olhou surpresa e fez uma careta como quem não estava acreditando no que eu acabara de falar. Mas eu repeti a frase e ela assumiu um semblante sério.

– Mas isso não vai prejudicar a sua carreira? – perguntou ela, doce.

– Independentemente disso, não tenho o direito de prejudicar a sua luta. O MDF mantém a identidade de seus integrantes em sigilo não por modismo e sim para evitar processos por discriminação, xenofobia ou qualquer outra interpretação equivocada dos princípios da ONG. Eu até tenho a opção de não citar nomes, tal como fiz e você mesmo pôde comprovar, mas o artigo é muito claro quanto à logística do grupo, às relações com parlamentares, ameaças de suborno e tudo o mais. Todos saberiam que você foi a minha fonte, pois estivemos muito próximos nos últimos dias. Vou ligar para o meu editor ainda hoje e inventar alguma desculpa – falei, demonstrando tranqüilidade.

Ela então me beijou antes que eu pudesse esboçar qualquer reação, esvaindo a faceta do profissional correto. Tive a certeza de que deveria ter tomado tal atitude antes, pois esta era a minha última noite com Tina. Duas horas e meia ao seu lado no Ômega-Sigma transcorreram como se fossem dois minutos e trinta segundos. Já nem pensava mais no artigo e na possibilidade de crescimento profissional, afinal, tempo para refletir sobre isso não me faltaria ao voltar para casa. Isso, claro, se as lembranças dos momentos com ela não tomassem o meu cérebro por completo.

– Quer saber? Lembra-se quando eu te disse que estávamos cansados de nos esconder? – perguntou ela.

– Sim, claro – respondi.

– A publicação desse artigo vai ser boa nesse sentido e ainda vai nos garantir visibilidade internacional. Por favor, faça isso por nós – disse ela, de forma surpreendente.

– Você está brincando? – interpelei.

– Não, não estou. Na verdade, eu não estava preocupada com o seu artigo e sim chateada por você não ter sido sincero comigo. Quero que você o publique.

Ficamos nos olhando por uns dez ou quinze minutos (era como se o relógio tivesse parado e eu não conseguiria dizer ao certo quanto tempo se passou) a fim de que as lembranças posteriores (como as que eu teria quando voltasse a pisar em solo brasileiro) fossem as mais nítidas possíveis. O momento de partir estava se aproximando.

Bebemos mais algumas cervejas, jogamos bilhar e até dançamos um pouco. Não reproduzirei aqui os pequenos diálogos entre beijos, abraços, goles, tacadas e passos desarticulados – pareceria piegas demais para uma história cujo fim é previsível. E também porque ela está aqui ao meu lado, no Aeroporto Internacional de Atenas, divertindo-se com a minha falta de habilidade para descrever momentos aparentemente românticos.

Vôo 1743–BRL, com destino ao Rio de Janeiro, plataforma D; anunciou o alto-falante. Chegou a hora de voltar para casa. E para o mundo real.

Leia também o http://aforismoemcartaz.blogspot.com e o http://twitter.com/hanrrikson

-ouvindo- The Fratellis \ Got ma nuts from a hippy

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