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CRONOLOGIA TEXTOS MEMORÁVEIS
 Desbravando Lesbos - III
@ Hanrrikson de Andrade
NO RIO DE JANEIRO
Agosto 17, 2008
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20/JUN/2008 23h45min – Meu segundo dia em Lesbos foi definitivamente acima das expectativas. Não só pelo fato de eu ter descoberto várias informações interessantes a respeito do Mulheres de Fibra, mas como também por ter passado o dia com uma mulher sensacional. Confesso-lhes: não consigo parar de pensar em Tina. Sinto-me, aliás, cada vez mais aflito por estar, de certa forma, sendo leviano com ela. Mais eis a questão: se eu jogar limpo, explicando objetivamente as razões pelas quais vim para cá, corro o risco dela simplesmente negar tudo o que dissera e ainda alertar suas companheiras quanto à existência de um jornalista estrangeiro interessado no MDF. Sinuca de bico, meus caros.

(Não entendeu nada? Leia os dois relatos anteriores aqui e aqui).

Após a passeata, que durou aproximadamente uma hora e quarenta e cinco minutos, fomos ao teatro da Praça de Ayassos – em cartaz uma peça chamada Coração de Papel, do italiano Giuseppe Cassola, muito boa por sinal. Em seguida, jantamos no Lemoni & Piperi – um dos melhores restaurantes de Mitilene – e aproveitamos o fim de tarde na principal praia da ilha, Petra. Admito que por várias vezes estive próximo de beijá-la (na verdade, esta era a minha vontade), mas a faceta do profissional correto foi soberana. Ao fim do agradável dia, ela me deu uma carona até o albergue – e cá estou eu, frente ao laptop e acompanhado por uma garrafa de Heineken (ao som de Mr. Writer, do Stereophonics).

Como tenho apenas mais um dia em Lesbos (embarco de volta para o Brasil às duas da manhã deste sábado), começarei a escrever o artigo ainda nesta madrugada. A quem interessar possa, deixo claro que não julgo prudente exagerar na sofisticação do texto, uma vez que a excentricidade da história já fala por si só. Portanto, ainda preciso de mais aspas, informações mais precisas quanto a algumas estatísticas, além de uma breve pesquisa sobre a existência ou não de outros grupos como o MDF. Mas a verdade é que isso nem me preocupa tanto assim, pois acho que estou no caminho certo. O que me deixa aflito mesmo é o fato de não poder contar a verdade para Tina, no sentido de que ela me conheça realmente como sou. Isso faz com que eu me sinta o mais antiético dos jornalistas e dos seres humanos em geral.

A PASSEATA. Não foi uma passeata de grande porte, por assim dizer, mas o suficiente para incomodar as autoridades gregas. Cerca de 250 pessoas – em sua maioria mulheres naturais de Lesbos – caminharam da Igreja de Mitilene à Assembléia Legislativa em sinal de protesto pela associação semântica entre a palavra lésbica e o homossexualismo feminino, nesta sexta-feira (20), na capital da ilha, Mitilene. Ao contrário do que se especulava, as integrantes da organização não-governamental Mulheres de Fibra, que mantêm suas identidades em sigilo desde o início das atividades da ONG, não abdicaram do uso de máscaras. A manifestação se deu de forma pacífica até o momento em que uma mulher não identificada atirou uma pedra na fachada do parlamento da cidade. Houve conflito entre manifestantes e policiais, o que resultou na prisão de cinco pessoas. Todas já foram liberadas.

No momento em que a confusão estourara, a primeira coisa em que pensei foi: preciso me certificar de que Tina está a salvo. Mas como faria para identificá-la? Chega a ser engraçado e difícil de acreditar, mas todas as integrantes do MDF (180 pessoas, aproximadamente) usavam máscaras de palhaço, de vários animais e até aquela usada por Jigsaw em Jogos Mortais, entre outras. Eu olhava e não conseguia parar de rir – até que algumas mulheres que caminhavam ao meu lado passaram a lançar olhares de reprovação em minha direção. Eu, naturalmente, receei por um possível linchamento.

Não tive como encontrar Tina antes da passeata, pois aproveitei a manhã de sexta-feira para conhecer alguns pontos turísticos da cidade e ir à praia (o que fiz logo após enviar o segundo relato). A concentração para o protesto começou por volta das onze e meia da manhã (eu me encontrava num quiosque, em Petra, com uma lata de cerveja nas mãos). Cheguei à manifestação por volta das 13 horas – e todos já estavam devidamente mascarados e trajados com camisas personalizadas (a frase mais comum era lésbica com muito orgulho). Portavam também muitos cartazes e faixas, além de um estrídulo carro de som, cujos microfones deram a um desses animadores de festas.

Foi incrível como vários cidadãos se juntavam à multidão com o decorrer da passeata. Não só mulheres, mas como também homens, crianças, idosos e até estrangeiros (não os homossexuais, claro). O MDF está cada vez mais se tornando popular em Lesbos, o que torna a pauta ainda mais curiosa. Ciente disso, eu não poupei esforços para extrair da passeata informações relevantes e aspas interessantes, além, claro, de tirar boas fotos. A princípio, pessoas comuns não me interessavam, de modo que fui gradativamente me aproximando do grupo dos mascarados. Tentei conversar com uma jovem que usava uma máscara que muito se assemelha às do grupo Slipknot – muito simpática, a máscara, por sinal –, mas estávamos próximos ao carro de som e quase não podia escutá-la. Até que, pasmem, o animador de festas resolveu fazer uma pausa e o silêncio só não foi total em virtude de alguns gritos proferidos por manifestantes mais empolgados. Mas foi inútil. A jovem não falava inglês.

Acabei conseguindo, em seguida, as aspas mais interessantes que poderia conseguir na passeata. Afastei-me, por alguns minutos, da algazarra dos mascarados para respirar com mais facilidade e observei que, bem na minha frente, duas jovens acompanhavam a multidão, com passos lentos e tímidos. A mais alta – de uns um metro e oitenta e dois centímetros –, estava com o braço envolto sobre o ombro da mais baixa – que deve ter uns vinte centímetros a menos – e, volta e meia, cochichava em seu ouvido. Desconfiei, afinal. Aproximei-me sorrateiramente a fim de puxar assunto.

– Uma causa justa, não acham? – disse, despretensiosamente.

– Sim, claro – respondeu a mais alta, Krypta. – Temos certeza de que não se trata de algo contra as homossexuais e sim contra o uso de uma simples palavra – acrescentou, praticamente abrindo o jogo.

Eris, a baixinha, reforçou a idéia de sua companheira.

– As mulheres nascidas em Lesbos passam por constantes constrangimentos em virtude dessa ligação entre uma palavra e a homossexualidade feminina. Elas têm toda a razão.

– Sem querer parecer inconveniente, mas... Creio que não seja o caso de vocês – disse, visivelmente desconfortável em tal situação.

– Já sofremos preconceito naturalmente, independentemente da naturalidade – replicou Krypta.

Perfeito. Um casal de lésbicas em uma passeata das lésbicas, digo, das mulheres nascidas em Lesbos, contra o uso da adjetivação lésbica. Mais pitoresco do que isso, impossível.

Agradeci a Krypta e Eris pela atenção e passei a procurar por Tina, pois a multidão já se encontrava no Complexo Político de Lesbos, o qual abriga a Assembléia Legislativa – seu celular estava desligado, o que me deixou realmente aflito e ansioso. Os manifestantes foram recebidos pelo deputado Vangelis Konstantinou, de Plomari, o mais árduo defensor da causa no parlamento. Após quinze minutos de diálogo em tom de negociação – o político tentava explicar à multidão que seria impossível uma audiência naquele momento –, uma das mascaradas atirou uma pedra na fachada da Assembléia Legislativa. Os policiais, que, assim que chegaram, fizeram um cordão de isolamento para impedir uma possível invasão ao parlamento, deram alguns tiros para o alto e usaram bombas de efeito moral para dispersar os manifestantes. Nem todos se afastaram e os ânimos ficaram ainda mais exaltados. Alguns dos policiais que usavam escudos blindados (uma espécie de Batalhão de Choque) não abdicaram da violência ao partir para cima dos civis. E eu era um deles, afinal, não havia tempo hábil para explicar a um policial enfurecido as razões pelas quais estava ali. Quando a possibilidade de acumular hematomas pelo corpo já me parecia inevitável, uma manifestante que usava máscara de Jigsaw me puxou pelo braço. Corremos por uns cinco minutos sem olhar para trás até que meus pulmões começaram a falar mal de minha mãe. Ao parar – estávamos num imenso bosque inerente ao Complexo Político de Lesbos –, joguei-me sob a grama e acendi um cigarro. Jigsaw se sentou ao meu lado e abriu o seu maço de Carlton.

– Admirável a coragem com a qual você enfrentou os policiais – ronronou ela, em tom sarcástico.

– Não se vanglorie. Qualquer policial que tenha visto as quatro versões de Jogos Mortais não seria imbecil o bastante para bater de frente com você – repliquei.

Ela deu uma gargalhada como quem realmente havia achado graça. Bateu um déja vu.

– De qualquer forma, sou grato pela ajuda.

Até que, enfim, coloquei minha memória para funcionar. A mesma gargalhada que ouvi no Ômega-Sigma após a piada sobre os rins de... Tina.

– Por que não tira a máscara? – perguntei.

– Melhor assim? – respondeu ela, desfazendo-se do pobre Jigsaw.

– Acho que sim.

UMA MULHER FASCINANTE. Passei rapidamente no albergue a fim de tomar banho e trocar de roupa. Não estava com fome o suficiente para gastar dez dólares com o almoço da Dona Yonassis, que é tão bom quanto caro.

– Mas não faça essa... (pausa) Como se fala...

– Desfeita? – arrisquei, na tentativa de ajudá-la.

– Isso! – concordou, sorrindo.

Não era uma desfeita e sim uma questão de economia. Mas não valia a pena perder tempo explicando isso a Dona Yonassis, cuja conversação em inglês era similar a um processo de alfabetização.

Dirigi-me até a Praça de Ayassos, afinal, combinara com Tina de ir ao Teatro Zenão de Cítio, que fica bem próximo dali. Ela chegou atrasada, como já era de se esperar – aquele era o nosso primeiro encontro marcado com certa antecedência e era evidente que ela iria manter a tradição do atraso. Mas eu não me importei. Estava feliz por encontrá-la.

Deixei um pouco de lado o processo de apuração a respeito do Mulheres de Fibra, de forma que dialogamos em tom mais pessoal, intimista. Falou-me sobre o pai, o qual ela não possui muitas lembranças, pois este abandonou a família no dia em que ela completou dois anos de idade. Tratei de dar novos rumos à conversa antes que lágrimas umedecessem seus olhos verdes. Tina pode ser definida como uma pessoa idealista e meiga, que exerce uma influência quase hipnótica sobre quem está próximo a ela. Evitava olhar constantemente para seu rosto, pois sou, digamos, susceptível a mulheres idealistas. Se forem meigas então, torna-se uma questão de covardia.

– Mas fale-me um pouco sobre você... Já deve estar cansado de escutar coisas a meu respeito – disse, sorrindo.

Não era conveniente falar sobre mim, afinal, existia uma verdade a ser revelada.

– É evidente que não estou cansado de falar sobre você – respondi, constrangido.

– Como é a sua vida no Brasil? – perguntou ela.

– Normal. Digo, faço as mesmas coisas que as pessoas fazem por aqui. As diferenças culturais nem são tão grandes assim – repliquei.

Então ela fez alguns comentários elogiosos a meu respeito, os quais eu prefiro ocultar. Em seguida, colocou a sua mão sobre a minha e recostou a cabeça sobre o meu ombro direito. Nervoso e sem saber o que falar, cantarolei os primeiros versos de Duas Cores, do Mombojó, em português mesmo.

– Vejam só, ele está cantarolando em português... Algo que eu não gostaria de entender? – perguntou, maliciosamente.

– Não se trata disso. É apenas uma música – respondi.

– Sei... Bom, a sessão já vai começar. Vamos?

E fomos. Em cartaz, a comédia Coração de Papel, do dramaturgo italiano Giuseppe Cassola, que me arrancou risadas sinceras. Relata a história de um artesão italiano que se muda para Nova Iorque e tem como única fonte de renda a produção de origamis. Deixamos o teatro por volta das oito e meia da noite e iniciamos a procura por um bom restaurante. A escolha, por razões óbvias, ficou a cargo de Tina.

– O Lemoni & Piperi é um dos melhores restaurantes da ilha – sentenciou.

De fato, o tal restaurante tinha um clima agradável e ótimos pratos. Pedimos lagosta e Chardonnay.

– Está gostando de sua visita a Lesbos? – perguntou ela.

– Sim, claro. É sempre bom conhecer outras culturas – respondi.

– Às vezes você me parece um pouco aflito, furtivo. Não consigo captar as razões pelas quais tenho essa impressão – disse, enquanto acendia um cigarro.

– Você é uma mulher incrível, Tina. Acredite – decretei. Foi a única coisa que me veio à cabeça.

– E está sempre desviando o assunto – replicou, sorrindo.

A conversa tomara um rumo perigoso, afinal, ela estava desconfiada e tinha motivos para tal. Mas consegui burlar a curiosidade alheia ao questionar sobre a sua vida amorosa. Fez uma pausa dedicada à reflexão e iniciou então um discurso de aproximadamente cinco minutos. Em voga, dois relacionamentos frustrados, sendo um deles recente. Ela não havia esquecido totalmente o rapaz em questão, mas se mostrava disposta a isso. Por volta das dez horas e quinze minutos, saímos do Lemoni & Piperi e fomos caminhar no entorno de Petra.

Na visão de qualquer pessoa de bom senso, um encontro mais romântico do que esse seria impossível. E eu estava feliz por isso, no duro. Mas pensava (e penso), antes de tudo, em duas coisas: a) minha viagem não vai durar mais do que algumas horas; b) a reação de Tina caso eu abrisse o jogo. Isso me emperrava de certa forma – deixava-me estático, inerte e inseguro quanto ao que eu estava (e estou) estava fazendo.

Conversamos por mais uma hora num quiosque em Petra e então cada um seguiu o seu caminho. Ela me deu uma carona até o albergue e, ao se despedir, agradeceu pela companhia. Por pouco não quebrei o gelo e tomei a iniciativa de beijá-la. Em vez disso, apertei uma de suas bochechas (até agora ainda não consegui compreender o porquê dessa atitude imbecil) e fiz uma piada qualquer. Típica atitude de um babaca.

– Te vejo amanhã – gritou ela, enquanto eu me esforçava para encontrar o buraco da fechadura.

(Continua...)

-ouvindo- Radiohead \ Jigsaw falling into place

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