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 Desbravando Lesbos - II
Agosto 09, 2008
20/JUN/2008 – 12h23min – Cheguei ao tal Ômega-Sigma por volta das dez e meia da noite desta quinta-feira (19). Trata-se de um bar razoavelmente grande, com direito a bilhar, jukebox, caça-níqueis e várias marcas de cerveja - localizado a cerca de 200 metros da Praça de Ayassos. O público é variado: de jovens entre 19 e 22 anos aos fanfarrões na faixa etária dos quarenta e até mesmo dos cinqüenta. E a relação entre os vários tipos de público é amistosa, segundo alguns dos freqüentadores. Para a estudante de economia Alexis Ioannidis, 22 anos, o baixo fluxo de turistas é um fator fundamental para o sucesso do Ômega-Sigma.

– Todos vêm aqui para se divertir: beber, jogar, ouvir música etc. As pessoas se respeitam, conhecem seus limites e fazem de tudo para manter um clima agradável. É diferente, por exemplo, de um lugar cujo público hegemônico é formado por turistas. Geralmente, eles saem à noite em busca de libertinagem ou algo do tipo. Acabam extrapolando na medida em que o álcool começa a fazer efeito – disse a estudante, que já no estacionamento bebericava sua Heineken ao lado de duas amigas empolgadas com o som do AC/DC.

Uma delas, aliás, se chamava Barbara e conhecia Tina, filha da costureira Acidália e possível integrante do Mulheres de Fibra (lembram dela?). Dia de sorte, pensei. Logo na primeira abordagem já descobrira pelo menos uma referência a tal Tina, que era até então a principal pista. Barbara, porém, reduziu substancialmente a minha empolgação: Tina não havia confirmado se iria ao Ômega-Sigma naquela noite, pois estava, digamos, indisposta.

– Chegamos a nos falar ontem, mas ela não confirmou nada – reiterou a estudante de Administração.

Julguei válido conversar um pouco mais com elas. A terceira amiga, Cybele, era a que menos falava e a que mais me intrigava: tinha uma expressão aflita, pouco sorria e volta e meia lançava olhares punitivos a determinadas pessoas que lá estavam. Também conhecia Tina - embora não fosse uma amiga propriamente dita - e também apresentara sinais de descontentamento quanto à presença de turistas em Mitilene. Mas concluí ser besteira da minha parte assim que, em determinado momento da conversa, citei o Mulheres de Fibra.

- Esse é o tipo de conduta de gente desocupada - garantiu, seca.

- Não vejo como uma questão prioritária. Há vários outros problemas, como a conservação do nosso patrimônio histórico, que deveriam ser tratados com mais seriedade - reforçou Barbara.

Após experimentar o tal do ouzo, resolvi circular pelo bar em busca de alguma pista ou qualquer coisa que me ajudasse no sentido de chegar ao Mulheres de Fibra. No entanto, ninguém sabia de nada - ou pelo menos fingia não saber. Acabei reencontrando Barbara na mesa de bilhar, que me garantiu ter visto Tina bebendo no balcão ao lado de uma amiga. Ela, segundo informações, trajava uma blusa preta ligeiramente decotada e com mangas bufantes, calça jeans escura e salto.

Depois de procurá-la por aproximadamente dez minutos, identifiquei uma garota com tais características na fila do banheiro e me posicionei em sua espera (não na saída do banheiro exatamente, mas sim próximo a uma mesa pela qual ela obrigatoriamente teria que passar). Ao vir em minha direção, coloquei-me à sua frente e interpelei:

– Então você é a Tina?

– Sim. Em que posso ajudá-lo? - replicou.

- Bom, soube que sua mãe é costureira e pensei que talvez ela pudesse me ajudar a resolver alguns pequenos problemas - respondi, com um meio sorriso.

- Acho que essa não é uma boa hora - sentenciou, retirando-se. - Procure-me amanhã.

- Na verdade, acho que você também pode me ajudar. Sou novo aqui em Lesbos e preciso de algumas informações referentes à cultura local. Bom, aceita uma cerveja?

- Agora você começou a falar a minha língua. Durvel, por favor.

- Boa escolha.

Tina é, de fato, uma mulher muito bonita. Olhos vivos e acinzentados, cabelos anegrados e cacheados na altura do ombro, um corpo esguio e naturalmente sexy (na medida certa, eu diria). Sua personalidade forte também não pode deixar de ser citada - tem opiniões devidamente embasadas, o que a torna uma pessoa ainda mais interessante. Foram aproximadamente duas horas de diálogo sem qualquer menção ao Mulheres de Fibra, afinal, eu não conseguiria nada de primeira considerando a inteligência e a perspicácia do interlocutor (antes mesmo da cerveja chegar, ela tratou de apresentar o seu cartão de visitas).

- Analisemos as possibilidades. Você não pretende me embebedar e roubar meus rins a fim de complementar a renda mensal, né? - questionou, sorrindo.

- Não. Do jeito que você parece beber, seus rins não devem ter muito valor no mercado - respondi.

Tina deu uma gargalhada. Realmente achou graça.

- Quem é você, afinal? E como sabe que minha mãe é costureira? - interpelou, abrindo a sua long neck.

- Na verdade, sou apenas um estudante estrangeiro em busca de informações mais detalhadas a respeito da história da política grega, das relações de poder e tudo o mais. Sabe, para um trabalho acadêmico.

- E como ficou sabendo que faço Ciências Políticas? - perguntou, franzindo as sobrancelhas. – Você realmente investigou a minha vida, hein.

- Ora bolas, sou um pesquisador – repliquei, com um meio sorriso.

Na verdade, eu sabia apenas que ela era filha de uma costureira. Nada mais.

Chamei-a para dançar assim que percebi a eminente e inevitável falta de assunto. Ela topou, mas com ressalvas. Disse que eu não parecia ter habilidade suficiente para acompanhá-la, o que se comprovou em questão de segundos, logo que pisamos na pista de dança. Ao nosso lado, duas mulheres dançavam juntas – nada que fosse capaz de arregalar os olhos de uma pessoa moralista, mas juntas afinal. Aproveitei o gancho:

– Elas dançam bem, não? – perguntei, fazendo um sinal com a cabeça em direção ao casal. – Muitas lésbicas vêm aqui?

– Se você fosse minimamente inteligente repararia que todas as mulheres que aqui estão são lésbicas – sentenciou, olhando-me ferozmente.

– Como assim? – perguntei como quem não havia entendido a mensagem.

Ela me respondeu com um breve silêncio – que, na verdade, era equivalente a uma confissão. Tudo convergia para isso.

– Bom, perdoe a minha ignorância. Acho que sei o que quer dizer – falei.

– Não sei por que vocês, estrangeiros, persistem em associar essa palavra ao homossexualismo feminino. Se fosse com você, por exemplo, o que acharia?

– Acho que tentaria levar na boa – respondi. Mentira, evidentemente.

Tina alegou cansaço e fomos para uma espécie de sacada próximo ao local destinado aos caça-níqueis. A vista para a ilha era realmente bonita, tal como o brilho lunar refletido nos olhos dela, que me parecia tão frágil e tão forte ao mesmo tempo.

– Observe a lua, por exemplo. É como se ela estivesse carregada de boas energias e as distribuísse entre as pessoas. Passarias horas apenas olhando para ela. É fascinante – filosofou, enquanto tentava manusear uma velha luneta, instalada próxima ao pára-peito.

– Vejo-a apenas como um ponto branco na imensidão escura – respondi.

Ela deu de ombros para o meu comentário implicante e continuou com o pescoço voltado para cima. Aproveitei para ir ao banheiro, pegar mais duas cervejas e comprar um maço de cigarros. Provavelmente, Tina só se deu conta de que eu havia a deixado só por alguns segundos no momento em que abriu a sua Durvel. Já um tanto quanto alta, resolveu falar um pouco mais a respeito de sua vida pessoal. E quase todas as suas frases terminavam com aquele filho da puta ou espero que ele esteja na merda. Era a conversa tomando um rumo totalmente desagradável.

– Desculpe, você não tem nada a ver com isso. Vou calar a minha boca. E pode falar que é um pouco de despeito da minha parte, eu deixo – disse, dando de ombros.

– Não há do que se desculpar. Fique tranqüila – garanti.

– É que ele foi tão filho da puta, mas tão filho da puta que eu não consigo parar de desejar a morte dele... – falou como uma das pessoas mais dramáticas de toda a Grécia. Sófocles ficaria no chinelo.

– Bom, mudemos de assunto.

Foi então que eu comecei a falar um sem número de besteiras a respeito da política da União Européia e de suas relações comerciais com o mundo. Não sabia como diabos fazer isso usando um ponto de partida tão nada a ver, mas pretendia, afinal, afunilar o assunto até chegar ao Mulheres de Fibra. Para minha sorte, Tina resolver tomar as rédeas da situação.

– Por que cargas d’água você está puxando um assunto tão chato e tedioso? – questionou, seca.

– É um ponto de vista. Não que ouvir a lamúria e as frustrações de uma pessoa tomada por ressentimento seja a pior coisa do mundo, mas eu, particularmente, prefiro telejornal a ver novela mexicana – respondi, abusando do sarcasmo. No entanto, digamos que ela não estava sóbria o bastante para captar a maledicência de minhas palavras.

– Quer saber, foda-se. Será que eu posso contar um segredo ao Senhor Pesquisador? – perguntou, cambaleante.

E contou tudo o que eu queria saber. As reuniões semanais, os integrantes mais conhecidos (pessoas da alta sociedade grega e tal), o apoio político e logístico, as pretensões, as falhas, as tentativas de suborno – exatamente tudo. Explicou-me as razões pelas quais os integrantes do MDF se reuniam secretamente e mantinham todas as identidades em sigilo e revelou, em primeira mão, que o anonimato estava prestes a ser rompido. Na minha primeira noite em Lesbos, já destrinchara todo o Mulheres de Fibra – desde sua criação – e conseguira, inclusive, aspas de uma das líderes do movimento. Só havia um problema. Ela não sabia que eu era um jornalista no exercício de sua profissão e pareceu até se simpatizar com a minha pessoa. A ponto de me convidar para a passeata desta sexta-feira (20), a qual será a primeira em que os manifestantes não usarão máscaras.

– Estamos cansados de nos esconder – sintetizou Tina, antes de abrir mais uma Durvel.

(Continua...)

Clique aqui para ler o primeiro capítulo.

-ouvindo- Regina Spektor \ Fidelity

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    Bookmark and Share   postado por Hanrrikson de Andrade @ 9.8.08   0 comentários

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