O fenômeno Siri |
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Ela nunca leu Monteiro Lobato na vida, acredito eu, mas se tivesse lido, acharia o Jeca Tatu o máximo. Ela é loira e ingenuamente burra, como o Brasil gosta. Tem sotaque carregado, não pensa nas coisas que fala e usa uma flor ridícula no cabelo. Aos que não gostam de Big Brother ou são indiferentes, é Íris. Aos mais íntimos, como as pessoas que choraram na terça-feira em que ela deixou o programa, é Siri. Aos jornais mais rebuscados, é Irislene Stefanelli.
Na verdade, independentemente de como a chamem, ela se transformou numa espécie de cabocla simpática e provavelmente vai levar esse estigma para o resto da vida. Nesta sétima edição do Big Brother, a Globo finalmente caiu em si e acabou com aquela palhaçada de sortear posteriormente dois participantes pobres para ingressar no programa (ou ficaram com medo do programa perder o seu sentido verdadeiro e se transformar num mecanismo de ascensão social ou consideraram a vitória daquela Mara, a pessoa mais sem graça que já passou por ali, uma tragédia). Essa Íris, apesar de ser uma ex-sacoleira, não me parece uma pessoa miserável ou que tenha passado fome na infância, mas os traços genuinamente brasileiros fazem dela uma pobre em potencial. Só que ela não é pioneira; vale a pena lembrar que a Sabrina Sato, na terceira ou quarta edição, tentou algo parecido, mas entrou pelo cano. Ficou mesmo foi com o rótulo de burra e famosa por falar asneira no Pânico na TV.
A Íris tinha tudo para vencer o Alemão na disputa: É mulher, caipira, ex-sacoleira e teoricamente com menor poder aquisitivo, enganada pelo namorado por dez anos, blábláblá. Mas a verdade é que no final das contas, ganha todo mundo. Ganha a Globo, que produziu mais uma celebridade instantânea com ótima popularidade; ganha a própria Íris, que deve garantir uma boa grana; ganha a Playboy, que não deve demorar a fotografá-la; ganha as revistas e programas de fofoca, que repercutirão o futuro do casal Íris e Alemão. Quem perde, certamente, são as pessoas que assistem Big Brother, que agora não tem mais graça nenhuma.
ouvindo: amy winehouse - rehab |
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publicado por AFORISMO.NET @ 13.3.07
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O Vestido |
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Hanrrikson de Andrade
NO RIO DE JANEIRO |
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Não acredita, mas não é que ele resolveu falar por si mesmo? Sim, ele resolveu, digamos, iniciar seu processo de independência. A melhor forma de fazer isso é através da boa e velha verborragia, claro, e ele sabe disso. Sabe também que o tempo corre no sentido contrário – o tempo parece ser seu inimigo maior. Sua única virtude é saber enxergar além das situações, esteja subentendido ou gritante em seu ouvido. Tem pressa, mas também tem medo. Medo, inclusive, de que percebam que ele é suscetível. Outro dia estava na frente do espelho tentando fazer ‘cara de simpático’. Sabe o pior? Ele não conseguiu! A verdade é que o que ele sempre quis foi um pouquinho só de atenção. Ela, pelo contrário, tem atenção até demais. Outro dia, ele a encontrou por aí, ou melhor, na sala de espera do dentista... (seus dois sisos estavam nascendo ao mesmo tempo). Semanas depois a encontrou numa festa não muito animada, mas, sem se importar com isso, ela dançava, tremulava, pulava, enfim, parecia uma pessoa qualquer em pleno ataque epiléptico. Não lhe pareceu muito normal e não dava mesmo pra encarar a alegria hiperbólica da menina com muita naturalidade. Então ele chegou para dar um oi ou perguntar sobre como estavam seus dentes e, por desatenção, deixou seu copo de cerveja cair em seu vestido. Ela até deve ter ficado puta ou chateada, mas disfarçou bem, indo ao banheiro sem olhar para trás. Não sabia se a esperava – qualquer atitude conciliatória após sujar o vestido de uma mulher é encarada como a cereja do bolo indigesto – ou se saía covardemente pela porta dos fundos. Resolveu esperar. Esperou, esperou, esperou... Depois de quase uma hora e quinze minutos ela voltou. Desculpas, pediu ele, silêncio, ela fez. Sua cara de pô, foi mal mesmo... não era suficiente. Ele precisava fazer algo mais, só que não era muito criativo. Eu te dou outro vestido, disse, coçando o rosto e olhando fixamente para o chão... Ela resmungou qualquer coisa e correu para um lugar afastado da multidão. Não a deixou se distanciar muito e, quando a encontrou, ela lhe deu as costas. O problema não é o vestido, disse ela. Riu, sabia que estava mentindo. Você pode jogar cerveja na minha roupa também se quiser, ele falou, você acha que sou tão mesquinha assim, perguntou ela. Parecia estar piorando as coisas. Parou, pensou por alguns segundos em alguma forma melhor de se desculpar... Sabia, na verdade, que ela não toleraria a presença de qualquer espécie de silêncio, portanto, era melhor ele pensar em alguma coisa. O que você vai dizer agora, perguntou ela. Nada, disse ele. Ela não entendeu, e perguntou como assim nada? A beijou, então, repentinamente, deixando-a sem ação, um longo beijo, daqueles que te tiram o fôlego.
Ótima forma de se desculpar, disse ela. Mas o meu vestido ainda continua molhado. |
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publicado por AFORISMO.NET @ 13.3.07
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