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CRONOLOGIA TEXTOS MEMORÁVEIS
 precisava me lembrar disso?
@ Hanrrikson de Andrade
NO RIO DE JANEIRO
Janeiro 24, 2006
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Episódio VI

Depois da conversa com Connie no Jazz CH, Thomas foi ao encontro de Dolores na estação de metrô. Ela havia prometido a ele que o arrumaria um emprego na livraria de seu tio, que ficava dentro de um shopping. O salário nem era grande coisa, mas só o fato de acabar com as tardes de ócio dentro do quarto já parecia uma idéia agradável. Chegaram à questão de vinte ou trinta minutos.

Dolores: Grande aqui, não?
Thomas: É, estou acostumado.
Dolores: Realmente, os nova-iorquinos devem estar acostumados com estabelecimentos de grande porte.
Thomas: Pois é.
Dolores: Onde esteve pela manhã?

Dolores ficava realmente muito bonita de óculos escuros. O vento balançava os seus cabelos loiros e Thomas mal conseguia prestar atenção na conversa.

Thomas: Ahn?
Dolores: Onde esteve hoje de manhã?
Thomas: Ah, fui tomar um café no Jazz CH.
Dolores: Gostou de lá?
Thomas: Lá existe uma serenidade a qual eu não estou acostumado. E a big band é muito boa.
Dolores: Viu o Jamaal por lá?
Thomas: Nem lembro da cara desse infeliz.
Dolores: Porra, Thomas! Não fale assim dele.
Thomas: Oh, desculpe-me por falar assim daquele que é quase um Chick Corea.
Dolores: Vai pro inferno, Thomas.
Thomas: Esse idiota não é casado?
Dolores: Sim e daí?
Thomas: E daí que você não tem chances com ele, Dolores.
Dolores: Precisava me lembrar disso?
Thomas: (...)
Dolores: Vamos entrar logo nesse maldito shopping.

Subiram umas oitocentas escadas rolantes e finalmente chegaram à livraria do tio de Dolores, a Strasser’s Bookstore.

Dolores: Thomas, este é meu tio. Jackie Strasser.
Jackie: Prazer, garoto.
Thomas: Olá, Mr. Jackie. Como vai?
Jackie: Bem, obrigado. Lucrando muito nesta época do ano. Conseguimos agendar tardes de autógrafos com vários escritores famosos, como Robert Spencer.
Thomas: Fico feliz em saber. Espero ser útil.
Jackie: E será, meu caro. Um dos nossos atendentes ganhou uma bolsa de estudos na Inglaterra e estamos precisando urgentemente de um substituto. Quer dizer, estávamos.
Dolores: Como vai a Nancy, tio?
Jackie: Oh, minha sobrinha, Nancy tem me dado muito trabalho. Está com 18 anos e com uma beleza que realmente chama a atenção. Isso me preocupa, e muito.
Dolores: (rindo) Ela é mais esperta do que você pensa, tio. Sabe se cuidar muito bem. Ela já voltou de Oakland?
Jackie: Voltou sim, está morando comigo. Vai estudar em alguma universidade de Chicago mesmo.
Dolores: Ah, que bom. E como está a problemática da sua ex-mulher?
Jackie: Sua tia está bem, fora aqueles probleminhas que você sabe quais são. Nancy me disse que ela está namorando um rico advogado em Oakland e que está muito bem de vida.
Dolores: Bem, preciso ir. Quando o Thomas começa?
Jackie: Amanhã mesmo.
Thomas: Ótimo. Ficarei muito feliz em trabalhar com o senhor, Mr. Jackie.
Jackie: Chame-me apenas de Jackie, Thomas. Até amanhã.
Dolores: Tchau, tio.
Thomas: Até amanhã, Jackie.

O cara era uma figuraça. Tinha uma extensa barba e usava uma bandana muito da cretina. Bem que tentou esconder, mas Thomas viu a garrafa de Jack Daniel’s em cima de uma mesinha na qual se presume que ele fica sentado o dia inteiro enquanto os atendentes se matam de trabalhar. Thomas ficou um bocado curioso pra saber da história da tia de Dolores.

Thomas: O que há com a ex-mulher problemática do Jackie?
Dolores: Ah, uma longa história. Posso resumir te dizendo que meu tio Jackie quase já foi preso por bater nela e que ela já foi internada em uma clínica psiquiátrica por umas duas ou três vezes.
Thomas: (rindo) Isso que eu chamo de harmonia familiar.
Dolores: Em compensação, minha prima é um doce. Você ainda vai conhecê-la, é uma das pessoas mais meigas e carinhosas que eu já vi.
Thomas: Sei... Pra onde vamos agora?
Dolores: Vamos beber alguma coisa.

ouvindo: blind willie mctell - writin' paper blues
 
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 Não se mete, garoto!
@ Hanrrikson de Andrade
NO RIO DE JANEIRO
Janeiro 17, 2006
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Episódio V

Estava fazendo um sol sem vergonha nesse dia. Thomas estava andando pela rua de acesso ao Jazz CH, em direção ao posto de gasolina. Engraçado como aquela rua ficava bem menos sorumbática nessa parte do dia. Os drogados ainda estavam lá, os mendigos também e as prostitutas nem se fala. Deviam ser as mesmas daquela noite do Jazz CH. A loira espalhafatosa, Tracy, com lábios carnudos e salientados pelo vermelho brilhante de seu batom, adornada de roupas extremamente coloridas e extravagantes. A outra, Connie, parecia ser a mais novinha, fazia mais o estilinho colegial; usava uma blusa de manga branca, intencionalmente meio desabotoada; saia azul-escura até o joelho, meia-calça e sapatinho de boneca. Além disso, ainda tinha a cretinice de usar uma gravata, de um xadrez avermelhado. E, finalmente, a terceira prostituta, Marshall, era uma negra de uns dois metros de altura. Daquelas que te colocam medo. Usava uma roupa preta, parecia couro. Tinha dois brincos enormes e fumava uma cigarrilha, falsificada, provavelmente. Thomas achou curioso o fato delas sempre estarem lá, no mesmo lugar, próximo ao ponto de ônibus. Ficou se perguntando se elas conseguiam clientes se vestindo daquele jeito.

Tracy: Ei! Vem cá, garoto! Faço uma hora por vinte e cinco pratas. Vai não, bebê?

Thomas aproximou-se.

Thomas: Posso perguntar uma coisa?
Marshall: Olha, vou logo avisando que só saio com homens mais altos do que eu.
Thomas: Não é isso.
Tracy: O que é então, garoto?
Thomas: Há quanto tempo vocês estão sem conseguir nenhum cliente?
Marshall: O meu último foi ontem. Um desses empresários engravatados que te fazem um agrado no final. Pena que ele era brocha.
Thomas: E o de vocês?
Connie: Acho que foi semana passada. Mas também foi bem proveitoso, porque o cara parecia ser importante. Acho que ele era senador ou algo do tipo. Mas não me atrevi a perguntar.
Thomas: (olhando para Tracy) E você?
Tracy: Não quero falar sobre isso.
Marshall: (gargalhando) Claro que ela não quer falar! Só consegue programa na cadeia, com aqueles imundos!
Tracy: Cala a boca, sua piranha negra de merda! Eu posso acabar com você!
Marshall: (tirando uma navalha da bolsa) Ah é? Então vem, sua loira de farmácia! Branquela desqualificada! Puta pobre!

Connie ficou no meio das duas, tentando acabar com a briga.

Thomas: Queiram fazer o favor de parar com isso.
Tracy: Não se mete, garoto!
Thomas: Vocês já estão numa merda fodida mesmo. Brigar pra que?
Connie: Ele tem razão! Parem com isso, agora!
Marshall: (guardando a navalha na bolsa) Chega de show, Tracy.
Tracy: Você não manda em mim, Marshall. Mas não vou perder meu tempo brigando com você.
Connie: Qual o seu nome, menino?
Thomas: Edward. E o seu?
Connie: Eu sou a Connie. Essa é a Marshall, e essa aqui é a Tracy. Não se impressione com a falta de educação dessas duas. Eu já até me acostumei.
Thomas: Quer conversar, Connie? O Jazz CH tem um ótimo capuccino!
Connie: Ok, mas não posso demorar. Ainda tenho muito trabalho hoje.
Marshall: Vê lá, hein, Connie. Vai tirar a virgindade do garoto, depois sobra pra você.
Tracy: (gargalhando) Presta atenção, hein garoto! Aprende com ela!
Thomas: (sem graça) Pode deixar.
Connie: Calem a boca!

E os dois foram andando em direção ao Jazz CH, enquanto Marshall e Tracy falavam gracinhas para que eles escutassem. Chegando ao Jazz CH, o garçom quis impedir a entrada de Connie.

Garçom: Eu te conheço! Você é uma das putas dessa rua! Nada de entrar aqui!
Thomas: Ela é a minha acompanhante, seu imbecil. Vai entrar sim.
Garçom: Desculpe senhor, mas isto aqui não é motel.
Thomas: Tem certeza que não vai nos deixar entrar? Eu posso ligar para o meu advogado, se for da sua preferência.
Garçom: Desculpe pelo transtorno, senhor. Mas entenda; pessoas como ela não podem entrar aqui. Mancham a reputação do lugar, entende?
Thomas: Lave a sua boca, seu imbecil. Vou ligar para o meu advogado, só um minuto.
Garçom: Ok, ok, senhor. Ela pode entrar.
Thomas: Antes, peça desculpa a ela.
Garçom: Desculpe, senhorita.
Thomas: Sendo assim, saia da frente da porta.
Garçom: Fique à vontade.

Então, os dois entraram e sentaram-se na ala de fumantes do Jazz CH. Connie ofereceu um de seus cigarros a Thomas. Ela estava impressionada com a atitude dele. Ninguém nunca tinha a defendido daquela maneira. Acabaram conversando por umas duas horas. Connie contou tudo da sua vida para Thomas, que mais escutou do que falou. Ele nunca podia imaginar que um dia teria uma amiga prostituta, mas é fato que ele gostou bastante da conversa que teve com Connie.
 
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 boa noite, sir thomas neville.
@ Hanrrikson de Andrade
NO RIO DE JANEIRO
Janeiro 12, 2006
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Saíram lá pelas três da manhã. Thomas achou meio sem graça a apresentação da big band do Jazz CH, mas ficou lá até o final. Aliás, Thomas não foi muito com a cara do tal de Jamaal. Disse à Dolores que ele era um tanto quanto lerdo para tocar piano, e que o fazia de forma displicente. Dolores revoltou-se com o comentário de Thomas, mas depois da terceira ou quarta Durvel acabou esquecendo. Engraçado como até as bebidas de Chicago eram bem mais suaves, o swing das apresentações musicais era mais refinado e como as pessoas tinham uma característica própria de ouvir música. Todas elas assistiam à apresentação de forma integralmente passiva, sem esboçar reações do tipo levantar a bunda da cadeira e dirigir-se instintivamente até a pista de dança. As pessoas de Chicago apreciam a tonalidade e a suavidade do blues mais intrínseco possível; era o próprio chicago-style. Thomas não estava habituado a esse tipo de coisa. Em Nova York, as pessoas têm um estilo muito mais participativo de apreciar a boa música. Eles não são meros espectadores, não se limitam a isso, aliás, eles são o próprio divertimento da coisa. No Barclay’s, por exemplo, não há dia que a pista de dança não esteja cheia. No Jazz CH, as pessoas apenas escutam, no máximo estalando os dedos, e, como sempre, com seus charutos fétidos na boca.

Para voltar pra pensão, os dois acabaram pegando aquela mesma rua. Um vento frio balançava os cabelos de Dolores, enquanto Thomas esfregava as mãos na tentativa de afastar aquela sensação gélida; aquela rua realmente seria um ótimo cenário para um filme de terror, desses de historinhas urbanas, onde a vítima é sempre a patricinha mais bonitinha e mais estúpida do local, quase sempre filha de alguém muito importante. Engraçado que os mendigos, os drogados, as prostitutas, o carro pegando fogo; tudo estava exatamente no mesmo lugar. O clima daquele lugar parecia imutável, intransponível e, sem sombra de dúvidas, misterioso. Exigia que todas as pessoas que por ali passassem, ficassem em estado de alerta, com os olhos bem abertos e preparados para ver qualquer tipo de cena. Não se sabe exatamente por que, mas o fato é que Thomas foi começando a se divertir com a coisa. Imaginou-se dirigindo aquele carro em chamas, em alta velocidade, com as prostitutas na parte de trás do carro, dando gritinhos, e ele dirigindo com um daqueles charutos fétidos dos caras do Jazz CH. Atropelaria todos os drogados e, numa freada, todas as prostitutas dariam com a cara na parede. Depois, haveria uma perseguição; Dolores apareceria como policial, dirigindo um carro daqueles policiais dos anos 80 – é, porra, daqueles que os próprios policiais tiravam a sirene do porta-luvas e colocavam em cima do carro. Thomas, o bandido canalha e sem escrúpulos, que assaltava lanchonetes sem a necessidade de qualquer tipo de arma, e Dolores, a charmosa policial que dispensa parcerias, prefere morar e trabalhar sozinha, que encanta todos os outros policiais pelos seus lindos cabelos loiros, que raramente estão soltos. Depois de ser perseguido incessantemente por todas as ruas de Chicago, Thomas entraria naquela rua e sofreria um acidente. Seu carro capotaria, e minutos depois, arderia em fogo. Dolores pararia seu carro logo atrás e iria rapidamente verificar se Thomas havia sobrevivido. Não encontraria ninguém. Onde estará Thomas? Vivo? Morto? Dolores começa a chorar, pois Thomas não era um bandido qualquer. Era seu predileto; seu amor platônico. É nessa hora que...

Dolores: Thomas! Olha o carro!

É nessa hora que Thomas foi quase atropelado. Sua viagem em relação ao carro pegando fogo, ao clima sorumbático daquela rua e essa coisa toda quase lhe custara a vida. Eles nem estavam mais naquela rua, já estavam praticamente chegando à pensão da Dona Mary Fleming.

Dolores: Você tem que ser mais atento com as coisas.
Thomas: Estou com sono. Desculpe-me.
Dolores: Vamos subir, mas sem fazer barulho. Se a Mary Fleming acorda, ela dá um troço.
Thomas: Ok.

Subiram silenciosamente as escadas e cada um foi pro seu quarto. Mas uns cinco minutos depois, Thomas não agüentou e foi lá bater na porta de Dolores. Ela abriu, apenas com uma camisola – era como estava acostumada a dormir. Thomas ficou em silêncio por alguns segundos, olhando completamente embasbacado para Dolores. Ela era realmente muito bonita. Dolores limitou-se a rir e perguntar:

Dolores: Vai ficar aí, parado, olhando pra mim como se eu fosse um alienígena?
Thomas: Só vim pedir para usar o banheiro, de novo. Sem querer abusar.
Dolores: (rindo) Entre.

Pura mentira. Não estava com vontade de ir ao banheiro porra nenhuma. Olhou, novamente, pelo buraco da fechadura e viu Dolores dançando em frente ao espelho. Depois, saiu rapidamente e mal se despediu. Dolores foi correndo, meteu a cabeça para o lado de fora da porta e antes que Thomas entrasse para o seu quarto, disse:

Dolores: Boa noite, Sir Thomas Neville.

ouvindo: cribs - martell
 
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 oh, yeah!
@ Hanrrikson de Andrade
NO RIO DE JANEIRO
Janeiro 05, 2006
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Episódio III

Passou o dia seguinte inteiro no quarto de Dolores, dando opiniões sobre roupas e tudo mais. Acabou contando a sua porra de história de vida, a qual Dolores nem deu muita atenção. Ela não parecia ser muito fã de autobiografias nem nada. Mas era curiosa e tal. E isso deixou Thomas um pouco puto. Contou a sua maldita história de vida – que ele odiava - com detalhes e tudo, para ouvir apenas um “legal hein”. Acabou fazendo a mesma coisa quando Dolores resolveu falar da vida dela e tudo mais. Quando Thomas resolveu finalmente voltar para o seu quarto já estava quase na hora de dormir. Voltou, tentou ler o mesmo livro que tinha lido na noite interior, mas logo ficou de saco cheio do livro - era a história de uma garota que foge de casa e vai viver numa sociedade alternativa no alto de uma montanha. Estava de saco cheio daquele universo de fugas e tal. Queria algo mais sólido, concreto, que o levasse a parar de pensar no que é insano e no que é normal. Escuta alguém bater na porta, levanta-se da cama e dirigi-se para ver quem é o imbecil inconveniente de merda. É Dolores, a loira fatal de óculos escuros.

Dolores: Posso te chamar de Thom?
Thomas: Não.
Dolores: Ah, claro, Sir Thomas.
Thomas: Thomas Neville.
Dolores: Inglês?
Thomas: Marroquino.
Dolores: Idiota.
Thomas: O que quer há essa hora?
Dolores: Salvar você.
Thomas: Como?
Dolores: É, salvar você.
Thomas: Você já falou isso.
Dolores: Não vai me convidar pra entrar?
Thomas: É pra ser sincero? (...)
Dolores: Não!?
Thomas: Aqui nem tem suíte nem nada. Não tem motivos pra você entrar aqui.
Dolores: Quer deixar de ser babaca?
Thomas: Quero. Entra.

Dolores entrou e dirigiu-se ao armário de Thomas, abrindo e analisando suas roupas.

Thomas: Perdeu alguma coisa aí?
Dolores: Ainda não.

Dolores passou uns cinco minutos pra tirar uma blusa branca, das novas que a senhora Neville tinha comprado para o Natal.

Dolores: Veste isso. Acho que vai ficar bem em você. Gosto dessa sua calça, fica com ela mesmo. Ah, e toma esse casaco aqui.
Thomas: Pra que isso?
Dolores: Não me faça perguntas. Vá vestir.

Não se sabe bem a razão, mas acabou indo ao banheiro vestir a droga das roupas. Enquanto isso, Dolores sentou-se na cama e começou a folhear o livro que estava aberto, marcado na página oitenta lá da historinha da menina que foge para uma sociedade alternativa no alto da montanha. Leu apenas algumas páginas; achou o livro uma bosta. Thomas saiu do banheiro vestindo a roupa que Dolores havia escolhido.

Dolores: Ficou ótimo! A sua cara!
Thomas: Tem certeza?
Dolores: Claro! Eu nunca falho.
Thomas: Agora me diga pra que tudo isso.
Dolores: Já disse pra você não fazer perguntas. Aliás, chatinho esse seu livro hein.
Thomas: É, já me encheu o saco.
Dolores: Não têm outros?
Thomas: Até tenho. Mas são tão chatos quanto.
Dolores: Os legais ficaram em Nova York?
Thomas: Pra ser sincero, eu nem sou muito fã de livros. Prefiro música.
Dolores: Ah, sério?
Thomas: Sério.
Dolores: E do que você gosta?
Thomas: Whitney Houston. Phill Collins. Música brega dos anos 80, em geral.
Dolores: (rindo) Belo gosto musical. Ah, fiquei aqui conversando contigo e acabei esquecendo da hora. Anda, vamos, precisamos correr!
Thomas: Ahn? Vamos? Pra onde?
Dolores: Cala a boca e vem comigo.

Dolores saiu então, rapidamente, puxando Thomas pelo braço. Nem deu pra fechar a porta direito, de tanta pressa. Desceram as escadas quase tropeçando nas próprias pernas, pareciam dois bêbados correndo da polícia. Passaram pela recepção e Dolores jogou um beijinho para Dona Mary Fleming. Correram por umas duas ruas, passaram pela loja de ferramentas do Jeffrey, cortaram caminho por um posto de gasolina até chegarem numa rua escura e quase deserta.

Thomas: Esse lugar é muito simpático, hein.
Dolores: Deixa de ser medroso. É no final dessa rua.
Thomas: O que?
Dolores: Você vai ver.

Quase não passava carros. Caía uma chuva muito da fina e sem vergonha nesse dia. Daquelas que te fazem querer estar em casa, deitado na cama, com a luz apagada, ouvindo Billie Holiday. Thomas parecia estar com medo, um pouco trêmulo, mas a verdade é que estava um friozinho desgraçado nesse dia. Nada que se compare à Nova York e tal, mas enfim.

Thomas: Por que paramos de correr?
Dolores: É no final dessa rua. Já estamos chegando.
Thomas: E...?
Dolores: E que é muito deselegante correr nessa rua.
Thomas: Ah, claro.
Dolores: Essa rua aqui é muito famosa por ser o local de trabalho de várias prostitutas. E correr aqui é muita pinta de puta correndo do carinha da limousine metido a perigoso.
Thomas: Que nem aquela cena do Psicopata Americano? Que a puta corre do Patrick Bateman enquanto ele a chama pra dar uma voltinha?
Dolores: Isso! E o pior é que elas sempre cedem no final.

E aquela rua era realmente um prostíbulo. Do outro lado, próximo a um ponto de ônibus, tinham umas três. Elas faziam realmente questão de mostrar que eram putas e tal. Falavam alto – do outro lado da rua dava pra escutar – e o vocabulário usado por elas não era dos mais agradáveis. Usavam roupas coloridas e muito extravagantes. Mas tinham uma efêmera imagem de serem prostitutas de quinta. Daquelas desqualificadas que só conseguem velhos beberrões como cliente; puta pobre! Daquelas que andam com uma navalha na bolsinha com o slogan de uma marca de refrigerantes.

Só prostitutas e mendigos habitavam naquele lugar. Tinha uns drogados inalando alguma coisa numa escada de acesso a um casebre abandonado e tal; ah! E tinha um carro pegando fogo! É, um carro velho em brasas. Uns dois sinais de trânsito após o carro pegando fogo tinha um velho com uma barba imensa, sentado numa cadeira, com um cachimbo no canto da boca e um saxofone na mão. Ele parecia ser o porteiro do lugar. Um pouco acima dele tinha um letreiro desses que piscam em azul e rosa, que anunciava o nome do lugar “Jazz ClubHouse”.

Thomas: Por acaso, é naquele tal de Jazz ClubHouse que a gente está indo?
Dolores: Parece ser o único lugar nessa rua que oferece algum tipo de divertimento, você não acha.
Thomas: Não, necessariamente. Mas enfim; você gosta de jazz?
Dolores: Eu até gosto, mas nem está entre os meus favoritos. Acho que sou muito mais fã do rhythm and blues.
Thomas: E essa é uma casa só de jazz?
Dolores: Óbvio que não. Vê se você consegue escutar...
Thomas: Não consigo.
Dolores: Chuck Berry!
Thomas: Ah, agora sim.
Dolores: Você poderia pagar a minha entrada? Custam apenas cinco dólares.
Thomas: Ta, mas você paga a bebida.
Dolores: (rindo) Ok.

Thomas acabou pagando as duas entradas. O porteiro do lugar, um tal de Cosby, que, aliás, era um excelente saxofonista, parecia íntimo de Dolores.

Cosby: Dolores Dandridge! Estás sumida, hein.
Dolores: Como vai, Cosby? Você está muito mais sumido do que eu!
Cosby: É, eu tive que ir para Memphis resolver algumas coisas e tal, mas finalmente estou de volta para a velha casa, a nossa querida Chicago. Oh, yeah!
Dolores: Oh, yeah!
Cosby: Oh, yeah!
Dolores: Vai, Thomas, fala! Oh, yeah!
Thomas: (não entendendo porra nenhuma) Oh, yeah!
Cosby: Quem é o branquelo aí?
Dolores: Seu nome é Thomas e ele é de Nova York. Thomas, esse é Cosby, o grande porteiro-saxofonista de Chicago.
Thomas: Prazer, Cosby.
Cosby: Oh! Nova York, Nova York! Minha prima também mora em Nova York. Ela é cantora de gospel, titular do coral daquela famosa igreja que fica na Pioneer Street.
Thomas: Já ouvi falar neste coral. Faz muito sucesso na periferia de Nova York.
Cosby: Eu sei, meu caro Thomas. Mas o sonho dela é se apresentar na Broadway.
Thomas: Coitada. Mal sabe ela que a Broadway é um antro de babacas. Todos lá tem um péssimo gosto. Ela deveria apresentar-se no Barclay’s. É o lugar mais fera de Nova York, sem sacanagem.
Cosby: Oh, yeah! Nosso grande mestre Miles Davis já tocou lá.
Dolores: Vamos deixar de conversa, a noite ainda é longa!
Thomas: Cosby, foi bom conversar com você.
Cosby: Igualmente, meu rapaz. Mas entrem, entrem! Deliciem-se com a nossa arte! O show está apenas começando! Oh, yeah!
Dolores: Oh, yeah!
Thomas: Oh, yeah!

Thomas achou o lugar requinte puro. Nem parecia que se localizava naquela rua mal encarada e tal. O bar era imenso e ficava bem no meio do recinto. As mesinhas ficavam ao redor, enquanto no fundo tinha um palco imenso. Bem maior do que o Barclay’s. O dono do lugar era um mafioso, um tal de Jordan. Ele pagava uma nota preta para manter aquele lugar, pois o uso de drogas era liberado. Esse Jordan sempre chegava numa limousine, cercado de garotas, todas brancas e loiras. Jordan, apesar de negro, não gostava de negras. Sempre aparecia fumando charuto e com ternos listrados. Era o mafioso bem no estilo cretino. Tinha dente de ouro e tudo.

Thomas: Quer dizer que esse tal de Jordan manda nisso tudo?
Dolores: É, ele manda, aliás, em toda a periferia de Chicago.
Thomas: É aquele ali no meio daquelas loiras?
Dolores: Ele mesmo. Sempre com seu terno listrado e com seus charutos cubanos.
Thomas: Ele é traficante ou algo do tipo?
Dolores: Uns dizem que ele mexe com drogas. Outros dizem que ele ganha dinheiro com o jogo do bicho. Não se sabe, ao certo.
Thomas: Entendo.
Dolores: Olha, aquele lá é o Jamaal. Ele é o pianista da big band do Jazz ClubHouse.
Thomas: E daí?
Dolores: E daí que ele é um excelente pianista. Quase um Chick Corea.

Thomas olhou desconfiado para Dolores.

Thomas: E por que você me mostrou justamente o pianista e não o saxofonista ou o trompetista?
Dolores: Não importa.
Thomas: Gosta dele?
Dolores: Como assim?
Thomas: Não se faça de imbecil. Você entendeu.
Dolores: Eu te conheço há muito pouco tempo para estar falando dessas coisas com você.
Thomas: Vai se foder, Dolores. Desembucha.
Dolores: Ta, é isso mesmo. Mas não tem muita importância, ele é casado.
Thomas: E se não fosse?
Dolores: Se não fosse não teria muita importância também. Os negros aqui de Chicago são verdadeiros racistas. Eles não aceitam a idéia de se relacionar com uma branca.
Thomas: Babaca ele, hein.
Dolores: Por quê?
Thomas: Porque você é uma menina legal e tudo mais. Aposto que é muito mais bacana do que a mulher dele.
Dolores: (rindo) Você está querendo me agradar e tal. Deixa isso pra lá.
Thomas: Não, é sério. Foi bom ter te conhecido, sabia?
Dolores: É?
Thomas: Do contrário, eu não teria pagado a sua entrada.
Dolores: Ah, claro!

Os dois, então, sentaram numa mesinha próxima ao bar e pediram duas cervejas. O bar do Jazz ClubHouse era tão fera que vendia Durvel e Guinness. E nem eram tão caras. A apresentação da big band do Jazz ClubHouse estava marcada para as dez, faltava meia hora ainda. Alguma coisa de classic blues ou de boogie fazia o som-ambiente. Nas mesas próximas tinham umas pessoas bem engraçadas, daquelas que se vestem como os próprios expoentes do Chicago-Style. Fumavam algum treco que tinha um cheiro péssimo, mas nem era bagulho nem nada. Era algum cigarro estranho mesmo.

ouvindo: cribs - hey scenesters!
 
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 posso ser seu inquilino?
@ Hanrrikson de Andrade
NO RIO DE JANEIRO
Janeiro 04, 2006
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Episódio II

A viagem fora tranqüila, apesar do desconforto e da bela educação dos passageiros e tal. A família do maldito Frank era um inferno; ao ponto da velha Juliette levantar-se de onde estava e sentar-se ao lado de Thomas, num dos últimos bancos do ônibus. Agora ele podia entender a razão para o mau humor e o porquê do próprio filho chama-la de velha rabugenta. Chegando ao terminal rodoviário de Chicago, sua primeira reação foi meter a cabeça pra fora da janela. Seria cretino demais exclamar um gritinho ou alguma coisa do tipo, então, ele limitou-se a franzir a testa e balançar a cabeça. Pegou os míseros três dólares que tinha no bolso e comprou um maço de cigarros. Thomas nem era viciado nem nada, fumava muito de vez quando, mas pensou que precisaria de alguma coisa para matar o tempo. Deu uns dez passos e parou em frente a um desses bares de rodoviária. Pegou o resto do dinheiro e pediu um café. Não havia comido nada durante a viagem, quer dizer; quase nada. Apenas uns biscoitinhos que estavam numa caixinha e que a velha Juliette guardava na bolsa. Mas era tão ruim que ele preferiu alimentar-se da própria fome. Depois dos cigarros e do café, sobraram apenas uns cinqüenta centavos. Sentado no balcão, ele resolve conversar com a garçonete. Seu nome é Dorothy.

Thomas: Você saberia me dizer quais são os filmes que estão passando nos cinemas de Chicago, Dorothy?
Dorothy: Ahn?
Thomas: (rindo) Não importa. Você não deve gostar muito de cinema, né?

Dorothy falava ao mesmo tempo em que mascava um chiclete. Thomas odiava pessoas que falavam e mascavam chicletes ao mesmo tempo. Além do simples ato de falar e mascar, ela fazia questão de fazer um barulho terrível, como se fosse um animal ruminante.

Dorothy: Acho que não.
Thomas: E do que você gosta, Dorothy?
Dorothy: Ah sei lá... Tipo, assim... Sei lá.
Thomas: Como assim ‘sei lá’?
Dorothy: Eu não sei responder essa pergunta, saca?
Thomas: Mas como assim você não sabe responder essa pergunta? É só dizer ‘sim’ ou ‘não’. É mais simples do que mascar esse seu maldito chiclete.
Dorothy: (desconfiada) Vem cá, cara, qual é a sua hein?
Thomas: Ahn?
Dorothy: É, cara, o que você tá querendo?
Thomas: Eu? Bem agora?
Dorothy: (...)
Thomas: A coletânea do Lionel Richie, serve?
Dorothy: (fazendo pouco caso, mas rindo) Muito engraçadinho, você. Dá o fora.
Thomas: Onde você mora?
Dorothy: É da sua conta?
Thomas: Não, mas é que você poderia me ajudar.
Dorothy: (colocando as mãos sobre o balcão e olhando nos olhos de Thomas) Ajudar como, hein cara? Se manca.
Thomas: Você é aqui mesmo de Chicago?
Dorothy: Não. Cara, se você for tira, é melhor você cair fora agora. Se não a barra ainda vai sujar pro seu lado.
Thomas: É, muito prazer, eu sou o policial Michael Williams. E posso te prender por ameaça à autoridade.

Dorothy ficou pálida na mesma hora, suas pernas estavam trêmulas e seus olhos arregalaram-se. Seu estado de inquietação era completamente visível.

Dorothy: E cadê a sua carteira?
Thomas: Eu sou do alto escalão do FBI. Não preciso mostrar distintivo pra te prender, Dorothy.

Dorothy tentou assoviar para o dono do bar, um homem corpulento e de aparência nada agradável.

Thomas: Se você insistir nessa de chamar esse idiota as coisas vão se complicar ainda mais pra você.
Dorothy: Quanto você quer?
Thomas: Suborno! Olha só, Dorothy, a barra está cada vez mais suja pra você. Eu, no seu lugar, começaria a me preocupar.
Dorothy: Eu te dou tudo que tem no caixa e você dá o fora. Topa?
Thomas: (...)
Dorothy: Tudo que tem no caixa e mais uma chupada. Aí você cai fora?
Thomas: O dinheiro do caixa é suficiente, Dorothy.

Dorothy tirou então uns duzentos e poucos dólares que tinha no caixa, além de algumas moedas. Entregou para Thomas sem a menor discrição, na cara dura mesmo. Thomas tomou o último gole do seu café, apagou o cigarro no cinzeiro e saiu tranquilamente. Aqueles duzentos e poucos dólares não eram muita coisa e tal, mas pelo menos ele podia começar a pensar em como se virar. Andou umas duas ruas e acabou parando em frente a uma loja de ferramentas. Ficou alguns vários minutos olhando os zilhões de ferramentas que tinham na vitrine, para finalmente entrar e pedir uma chave de fenda ao vendedor, que se chamava Jeffrey.

Jeffrey: Mais alguma coisa?
Thomas: Não, obrigado.
Jeffrey: São cinco dólares e cinqüenta centavos.
Thomas: Pode ficar com o troco.
Jeffrey: Obrigado.
Thomas: Onde você mora?
Jeffrey: Aqui pertinho. Por quê?
Thomas: Por nada. Sou novo na cidade e tal; preciso de um lugar pra ficar.
Jeffrey: Tem uns apartamentos legais pra alugar lá pro lado da Lincoln’s Square.
Thomas: Não sabe de nada mais barato?
Jeffrey: Aqui pertinho existe uma pensão que quase não tem inquilinos. Acho que só têm dois ou três. A proprietária é uma coroa bonitona chamada Mary Fleming. Ela deve estar precisando de inquilinos.
Thomas: E como eu acho isso?
Jeffrey: Acho que fica há umas três quadras daqui. É só procurar pela “Fleming Boarding House”.
Thomas: Obrigado, Jeffrey. Foi bom conversar com você.
Jeffrey: De nada, volte sempre.

Thomas nem era muito fã da idéia de ficar em pensão ou coisa do tipo. Seria previsível demais desembarcar numa cidade desconhecida e logo procurar uma pensão pra ficar. Mas ele não fazia idéia de que outros lugares poderiam existir. Continuou andando pelas ruas, completamente sem rumo. Passou por zilhões de casas, até achar a maldita Fleming Boarding House. Era uma pensão bacana e tal, nem era das mais desagradáveis, e parecia deserta. Foi até a portaria e não havia ninguém pra atende-lo. Tocou um daqueles sinos de biblioteca e nada. Quase dez minutos ali esperando. Quando estava quase tomando a decisão de ir embora daquela pocilga, eis que aparece a coroa bonitona da qual o Jeffrey falava. Tratou logo de se apresentar.

Thomas: A senhora deve ser a Mary Fleming, certo? Prazer, meu nome é Thomas.
Mary Fleming: Olá, Thomas. O que deseja?
Thomas: Posso ser seu inquilino?
Mary Fleming: (rindo) Claro!
Thomas: Não tenho muito dinheiro, não sei quanto tempo poderei ficar. Mas sei que posso pagar pelo menos uma mensalidade.
Mary Fleming: Não se preocupe com isso. Pelo menos não agora. Me acompanhe, vou te mostrar o interior da pensão.

Era uma pensão simpática, até. E só tinha mesmo três inquilinos. Não era cara e tal, realmente não dava entender a razão pela qual a pensão da dona Mary Fleming não bombava. E ela era uma coroa realmente bonita. Dava gosto de ver.

Mary Fleming: Você prefere cama de solteiro ou de casal?
Thomas: Solteiro.
Mary Fleming: Bom, temos dois quartos vagos com cama de solteiro. Os dois estão praticamente custando à mesma coisa; a única diferença é que um deles tem banheiro.
Thomas: A suíte, obviamente, deve ser mais cara. Fico no sem banheiro mesmo.
Mary Fleming: Como quiser.
Thomas: Como faço pra pagar?
Mary Fleming: Acertamos isso depois. Tome sua chave.
Thomas: Obrigado, senhora.
Mary Fleming: De nada, rapaz.

Despediu-se dando uma piscadela com o olho esquerdo. Aquela piscadela causou certo tipo de calafrio em Thomas. Após entrar em seu novo quarto, sentou na cama, acendeu um cigarro e ficou pensando nas razões pela qual a pensão da dona Mary Fleming tinha tão poucos inquilinos. Seria ela uma psicopata que é famosa em Chicago por matar seus inquilinos? Ou uma tarada que os faz de escravos sexuais? Preferiu parar com aquelas bobagens e começar a pensar em algo mais útil. Com o dinheiro que tinha só conseguiria pagar aquele mês e metade do outro. Fora que com isso não sobraria dinheiro pra mais nada. E ele não viera pra Chicago apenas pra trabalhar e fazer um treinamento de auto-suficiência. Ele queria muito mais do que isso. Resolveu conhecer os outros inquilinos. Um deles morava no quarto vizinho e tinha banheiro e tudo. Usou isso como desculpa.

Thomas: Olá, meu nome é Thomas e eu acabei de me mudar pra cá. Não sei muito bem como é o esquema de funcionamento do banheiro da pensão e tal, então, seria demais pedir para que a senhorita me emprestasse o seu banheiro por uns minutinhos?

Ah! Como era bonita a moça do quarto vizinho, uma tal de Dolores. Era loira do tipo fatal e estava com um óculos escuros que dava um ar misterioso àquela gracinha. Parecia estar experimentando roupas, pois vestia peças que não se combinavam. Aliás, tinha um espelho gigante em seu quarto, além de roupas e sapatos espalhados por todos os cantos.

Dolores: É urgente?
Thomas: Mais ou menos. Mas eu juro que me esforço para acelerar o processo.
Dolores: (rindo) Vai lá.

Abriu a porta e logo indicou onde era o banheiro. Thomas entrou, trancou a porta e ficou observando-a pelo buraco da fechadura. Nunca viu uma pessoa possuir tantas roupas como ela. Ah, e sapatos também. E ela fazia questão de vestir todos. Outra coisa que chamou a atenção foi o fato dela sempre fazer anotações logo após experimentar um determinado conjunto de roupas. Pensou que ela poderia ser uma figurinista ou coisa do tipo. E o bacana é que ela se divertia fazendo aquilo e tal. Fazia caras e bocas em frente ao espelho, mudava os óculos, colocava e tirava uns chapéus bem espalhafatosos. Seu banheiro era bem curioso, afinal, demonstrava a quão vaidosa ela era. Milhares e milhares de coisas pra cabelo, de cremes, maquiagens e tudo aquilo que você possa imaginar. Saiu uns cinco minutos depois, meio sem graça, claro. Aliás, esse lance de sair sem graça do banheiro vai acabar virando rotina na vida de Thomas. É a segunda vez que isso acontece nos últimos dois ou três dias.

Dolores: Tava difícil, menino?
Thomas: (fazendo-se de desentendido) O que?
Dolores: A sua aventura pelo meu banheiro, oras.
Thomas: Pode me tirar uma dúvida?
Dolores: (apontando para a cama) Senta aí e fala.
Thomas: Por que diabos essa pensão tem esse número miserável de inquilinos? Eu fiquei pensando nisso por horas e tal e não cheguei a nenhuma conclusão? Além do mais, a dona dessa pensão não te parece um pouco estranha?
Dolores: Você pensa demais, menino. Vê se essa roupa ficou boa.
Thomas: É pra ser sincero?
Dolores: Não ficou? Claro que ficou, olha!
Thomas: Ficou meio paia e tal. Mas não tem importância.
Dolores: Por quê?
Thomas: Porque ninguém hoje em dia liga pra roupa.
Dolores: Ah, eu ligo.
Thomas: Percebe-se.
Dolores: Aliás, qual o seu nome?
Thomas: Joseph. Joseph Peters. E o seu?
Dolores: Dolores Dandridge.
Thomas: Você é latino-americana? Hispânica?
Dolores: Eu sou filha de pais americanos e tal, mas nasci em Madrid. Vivi lá até os sete anos.
Thomas: Que fera.
Dolores: Meus pais voltaram pra lá no ano passado e eu resolvi que ia ficar por aqui mesmo e tal. Daí eles foram e eu fiquei.
Thomas: E você não tem outros parentes?
Dolores: Até tenho. Mas eles são uns estrupícios. Melhor ficar sozinha mesmo.
Thomas: Eu realmente te entendo.
Dolores: É?
Thomas: É, minha família também ficou em Nova York e tal. Eu meio que fugi.
Dolores: Ah, é?
Thomas: É... Mas eu não to com saco pra contar uma porra de história de vida nem nada.

A vivacidade de Dolores acabava retraindo Thomas em algumas coisas, como, por exemplo, propor uma conversinha mais inteligente. Ela parecia ser o tipo de pessoa que sabe destruir um assunto na mesma facilidade que constrói. Thomas, ou simplesmente Joseph Peters, ficou mais alguns minutos no quarto de Dolores e depois usou a desculpa de ter que devolver umas fitas de vídeo pra voltar ao seu quarto. Ele sentia-se meio reduzido perto dela. Sem sono, e muito menos vontade de força-lo, acabou recostando-se na cabeceira da cama e pegando um daqueles dois ou três livros que estavam na sua mochila.
 
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 na tentativa de escrever literatura pop #2 - nem tão pop assim, eu sei.
@ Hanrrikson de Andrade
NO RIO DE JANEIRO


Episódio I

Era um pouco tarde pra tentar se distanciar do mundo, mas ele nem ligava. Apenas três dólares no bolso e uma mochila com algumas roupas, e claro, uns dois ou três livros. Thomas nem tinha espírito aventureiro nem nada, era apenas um jovem de saco cheio, cansado de ver as mesmas pessoas, ir aos mesmos lugares e fazer as mesmas coisas. A essência da coisa é apenas deixar pra trás a vida de um nova-iorquino comodista e buscar um punhado de desafios em outro lugar. Ele sabe o quão impossível é viajar com apenas três dólares no bolso, mas Thomas é um cara meio cabeça-dura, saca? É, ele não desiste das coisas tão facilmente assim, apesar de que não podemos chamar isso de persistência, tratando-se dele. Digamos que ele sinta um baita sentimento de podridão quando vê suas idéias escorrerem pelo ralo e que se transforme num ser humano muito chato quando quer determinada coisa. Mas, ainda assim, isso não é persistência.

Ele encontra-se sentado num dos bancos da sala de espera de uma rodoviária numa quinta às duas horas da manhã. Decadência. Sua mãe muito provavelmente já ligou para todos os seus amigos e parentes, isso, se já não estiver sofrido um enfarte. Susan tem problemas cardíacos sérios e quase já morreu de sopro no coração. Seu pai, Phil, por ironia do destino, é médico cardiologista. E, muito provavelmente, deve estar cuidando de Susan agora. Thomas ainda tem uma irmã caçula que nasceu com paralisia infantil, chamada Rachel. Desde que ela nasceu sua mãe enfrentou problemas psicológicos e virou escrava dos antidepressivos. Sua família, apesar dos problemas, sempre seguiu a tendência da manutenção de aparências. O pai lava o carro aos domingos enquanto a mãe trata de cuidar da casa e da vida escolar dos filhos. Apesar dos pesares, era considerada uma família feliz. A rotina – ah, a rotina! – era devidamente programada pela senhora da casa. O pai fazia a parte de chegar em casa sempre por volta das dez horas, com a gola da gravata desarrochada e carregando o paletó nos ombros. A família de Thomas era praticamente igual a 95% de todas as famílias americanas. Incrível como elas têm o mesmo esquema idiota: o pai trabalhador, a mãe dona-de-casa, na maioria das vezes um casal de filhos, sendo o garoto mais velho como o rebelde da história e a filhinha caçula como a estúpida que tira boas notas no colégio. Ah! E não poderia ser uma típica família americana se não tivesse um cachorro com um apelidinho imbecil. Na casa dos Neville, pra contrariar, havia dois: Ray e Lucious. Sem se diferir da maioria de seus amigos, Thomas sentia-se cansado, entediado, incorporado a uma estrutura social que ele não desejou ter.

A decisão de romper com tudo aquilo fora tomada uns três ou quatro dias antes. Thomas estava passando por uma loja de artigos bélicos e se encantou com um canhão antigo usado na segunda guerra mundial. Decidiu, então, ir para a Alemanha. Mas logo desistiu quando lembrou que o clima de lá era muito parecido com o de Nova York. Pensou em ir para a Rússia, mas acabou desistindo também, pelo mesmo motivo. Inglaterra seria clichê demais. Itália seria bacana, mas como fazer uma viagem internacional com o pouco dinheiro que possuía? Acabou optando por escolher seu destino depois de um belo porre no Barclay’s. O Barclay’s era um dos únicos bares de Nova York que ainda tocava música de qualidade. Muitos artistas bons passaram por lá, como Miles Davis e John Coltrane. Thomas era fanático por blues e jazz, em geral. Conseguia arriscar passos tímidos quando escutava Benny Carter, tocando com o All-Star Sax, e era capaz de ficar horas escutando Little Walter, sem se cansar. Na noite daquele domingo estava marcada a apresentação de Cotton Winsley, um dos bons saxofonistas provindos de Nova Orleans. Aliás, se tivesse que viajar para dentro dos próprios Estados Unidos, Thomas escolheria Nova Orleans, sem titubear. Mas então que naquele domingo, Cotton Winsley seria a trilha sonora do porre que mudaria a sua vida. Thomas chegou cedo ao Barclay’s e pegou uma das primeiras mesas do recinto, bem próxima ao bar. O Barclay’s tinha umas bebidas especiais, daquelas que você só acha nos bares localizados nas camadas mais pobres de Nova York, como o “Mike Tyson’s Punch” ou o “Slam Drunk Contest”. Pediu um de cada ao garçom. Estava disposto a gastar quase tudo naquele dia, e naquele exato momento, ele estava pouco se fodendo para os planos de viagem. Queria curtir as bebidas e o Cotton Winsley, que começou a noite mandando “The Girl From Atlanta” do Benny Carter. Thomas sentiu uma puta vontade de levantar dali e ir até a pista de dança, para, muito provavelmente, arriscar os seus medíocres passos tímidos. Não conseguiu. Mas vale destacar que a probabilidade dele conseguir levantar e chegar até a pista em condições de dançar era muito pequena. Quando Cotton Winsley chamou a vocalista da bandinha do Barclay’s para cantar “Juke”, ele simplesmente não conseguiu tirar os olhos do palco. Parte pela beleza indiscutível da música e parte pela graciosidade daquela menina, que aparentava ter apenas uns 21 anos. Não sabia seu nome nem nada, mas decidiu chama-la de Mary Ann, já que sua voz se aproximava muito da famosa rayzete. A apresentação de Cotton Winsley terminou lá por umas duas da manhã; já eram quase quatro horas, e apenas Thomas permanecia no bar. Sentado próximo ao palco, com apenas um copo de cerveja quente e que ele teve de catar moedas pra pagar. Meteu o pau em quase todo o dinheiro. O garçom limpava as mesas, uma jovem moça tratava de varrer o chão, os músicos recolhiam seus instrumentos e Thomas, ainda sentado próximo ao palco, cantarolava os versos de “I’m a Man” (naquela versão do Bo Diddley, Muddy Waters e Little Walter). Um dos garçons veio e sentou-se ao seu lado. Apresentou-se como Gerald e se prontificou a ajudá-lo a caminhar até o lado de fora do Barclay’s e pegar um táxi. Thomas esbaforiu apenas um “táxi é coisa pra viado”. Gerald não conseguiu conter o riso, enquanto pegava Thomas pelos ombros e o ajudava a caminhar. Quando chegou ao lado de fora do Barclay’s, praticamente desabou. Sentado na calçada, pediu para que Gerald se sentasse também e que perdesse pelo menos uns cinco minutos conversando com ele. Repetia incessantemente, com a voz mais ébria do mundo: “Sente-se, Gerald. Você podia fazer diferente das outras pessoas e perder um pouco do seu tempo conversando comigo. Eu juro que não tomarei muito do seu tempo”. Até que Gerald acabou por ceder.

Thomas: Você gosta de trabalhar aqui?
Gerald: Cara, até que é legal ser garçom. Eu não tenho do que reclamar.
Thomas: Mas você sempre quis ser garçom?
Gerald: Óbvio que não! Cara, você está muito bêbado mesmo.
Thomas: E qual era o seu sonho, antes de ser garçom?
Gerald: Eu sonhava em ser um grande jogador de basquete e tal, conseguir uma bolsa na universidade, essas coisas que os adolescentes das periferias americanas sonham.
Thomas: Você era um daqueles caras que ficam 20 horas por dia jogando basquete naquelas quadras de rua e que ficam falando gracinhas quando a gente passa?
Gerald: (rindo) Nem todos são assim, Thomas.
Thomas: E por que você não foi ser jogador de basquete, já que esse era o seu sonho?
Gerald: Porque não é tão simples assim. Eu joguei alguns campeonatos na hight school, mas eu tinha um técnico branco e que acabou me excluindo do time por eu ser negro.
Thomas: (gritando) Filho da puta!
Gerald: Mas não tem problema. Jesus Cristo é misericordioso e perdoa a quem se arrepende. Eu espero que ele tenha sucesso em sua vida
Thomas: (espantado) Não, Gerald, não! Jesus Cristo não perdoa não! Ele é um belo de um filho da puta mesmo!
Gerald: (rindo) Thomas, você ta falando essas coisas porque ta bêbado. Lá na Igreja nós aprendemos que Jesus Cristo sofreu pra nos salvar, e que não há pecado maior se não o rancor e a vingança.
Thomas: Ah, você é religioso. Agora, entendo.
Gerald: Religião faz bem ao ser humano.
Thomas: Desde que um filho da puta não faça uma coisa dessas, né.
Gerald: Vamos, preciso voltar lá pra dentro; o bar vai fechar. Vou chamar um táxi pra você.
Thomas: Eu não preciso desses taxistas imbecis. Posso me virar sozinho.
Gerald: É melhor você não falar mais nada, Thomas. Você se lembra, ao menos, onde você mora?
Thomas: Gerald. Se você tivesse que viajar para um lugar, qual seria?
Gerald: Por que essa pergunta, logo agora?
Thomas: Não importa. Então, qual seria a bosta do lugar?
Gerald: Acho que viajaria para Chicago.
Thomas: Por causa dos Bulls?
Gerald: Também.
Thomas: Qual o principal motivo?
Gerald: Thomas, você está muito bêbado pra escutar os problemas dos outros.
Thomas: Não, Gerald, pode falar! De verdade!
Gerald: É que meu pai mora em Chigaco. E eu, tipo, eu não o conheço. Ele foi embora quando eu tinha uns três anos. Só tenho uma ou duas fotos dele.
Thomas: Você tem alguma aí contigo?
Gerald: Tenho. Por quê?
Thomas: Deixa-me ver.

Gerald abriu sua carteira e retirou a foto mais recente que tinha do pai.

Thomas: Deixe essa foto comigo. Talvez um dia eu possa retribuir o fato de você ter perdido seu tempo conversando comigo e tal.
Gerald: Tudo bem. Pode ficar com a foto. Que Deus olhe por você, Thomas.
Thomas: Boa sorte, Gerald. E se um dia você encontrar de novo aquele filho da puta branquelo que te excluiu do time de basquete, não esquece de dar um potente chute no pobre saco do infeliz. Faça isso; você vai se sentir bem melhor.
Gerald: (rindo) Vá com Deus.
Thomas: Faz um último favor pra mim?
Gerald: Diga.
Thomas: Diga à Mary Ann que ela canta muito bem.

Thomas deu as costas para Gerald e partiu, esforçando-se para andar em linha reta. Seu estado não era dos melhores, mas ele seguiu cambaleando pela rua, tentando se equilibrar nas próprias pernas. O saldo havia sido mais ou menos positivo; ao menos, ele já sabia pra onde viajar. E Chicago era certamente uma boa escolha. Tinha um blues de qualidade, além de ser uma cidade conhecida pela agitada vida noturna. Já estava quase amanhecendo quando Thomas chegou finalmente na porta de casa; morava pertinho do Central Park e já podia ver as pessoas preparando-se para o cooper diário. Demorou uns quinze minutos para conseguir enfiar a chave na fechadura, teve o cuidado de ser silencioso para não acordar ninguém – havia dado a desculpa de estudar na casa de um dos seus poucos amigos do colégio – e foi direto para o seu quarto, onde só teve o tempo de tirar o casaco e desabar em sua cama.

A hora vai passando e ele continua ali, sentado na sala de espera de uma rodoviária. Esteve por esse tempo todo em espera, sempre em espera, espera por algo que quebrasse a mesmice de sua vida. Pensou em convidar Mary Ann para largar o Barclay’s e ir para Chicago com ele. Ela pagaria as passagens e lá ele trabalharia para recompensá-la. Mas pensou bem e viu que nenhuma garota no mundo vai querer largar tudo e viajar com um cara que tem apenas três dólares no bolso. É, ele teria mesmo que viajar sozinho. Mas ele meio que já tinha se acostumado com a falta de companhia. Só que ainda nem sabia como fazer isso. Sabia que o ônibus pra Chicago sairia às três e meia da manhã, então, ele tinha aproximadamente uma hora para pensar em alguma coisa. Pensou em se passar por cego e pedir dinheiro, até conseguir o suficiente pra passagem, que era estava em torno de cento e poucos dólares. Impossível. Pensou em ligar pra casa e pedir um resgate por um suposto seqüestro dele mesmo. Mas isso acabaria dando merda. Ele observou que todos os bancos da sala de espera estavam ocupados e que havia uma senhora que mal se agüentava em pé e que também esperava pelo ônibus das três e meia. Ofereceu o seu lugar e a caquética prontamente aceitou. Sentou-se no chão, próximo à ela, e então a velhaca começou a puxar assunto. Seu nome era Juliette.

Juliette: Também está indo pra Chicago?
Thomas: (sem saber o que dizer) É, acho que sim.
Juliette: Ah, nós também. Algo me diz que o verão em Chicago é uma coisa horrível.
Thomas: O que faz a senhora achar isso?
Juliette: Ah, não sei! Aqueles negrinhos de lá são muito festeiros.
Thomas: A senhora não gosta de blues?
Juliette: Só os negros gostam disso, meu filho.
Thomas: Claro que não. Eu sou branco e gosto.
Juliette: Ah, você é uma exceção, então.

A velha era meio mal humorada. Na verdade, Thomas já tinha percebido isso, quando ela nem agradeceu o fato dele ter oferecido o lugar pra ela e tal. Ela tinha uma aparência bem ranzinza e rugosa; parecia ter mais de sessenta anos.

Thomas: Pode ser. Mas por que a senhora está indo pra Chicago, então?
Juliette: Ah, meu filho Frank cismou que eu estou ficando uma velha rabugenta e decidiu me levar para passar o verão junto com ele e a família.
Thomas: Alguma razão ele deve ter pra dizer isso, né?
Juliette: (rindo) Você me parece um rapaz esperto. Vai fazer o que em Chicago?
Thomas: Vou estudar sapateado.
Juliette: Ta falando sério?
Thomas: Claro!
Juliette: Ah, olha! Aquele ali é o meu filho, o Frank, tão lindo!

O filho dela tinha mais ou menos um metro e oitenta e devia pesar uns cento e trinta quilos.

Juliette: Aquela é a chata da mulher dele. E aqueles são os meus netos.

Ela tinha uns onze netos, sem sacanagem.

Thomas: Todos eles são filhos do Frank com a mulher chata?
Juliette: Não, o Frank só me deu cinco netos. Os outros são dos meus outros filhos.
Thomas: A senhora tem quantos filhos?
Juliette: Tenho o Frank, ele não é lindo? Tem o Ralph, o caçula, que também é lindo, e duas filhas que são as mais velhas: a Karen e a Jane.
Thomas: As pessoas da sua família gostam de reproduzir, hein.
Juliette: É verdade. O Frank puxou ao pai, o falecido Charles. Ah! Aquele homem era uma coisa!
Thomas: (rindo) Eu faço idéia.

Nesse momento o alto-falante da rodoviária anunciou o embarque para o ônibus das três e meia. Thomas reparou que a quantidade absurda de netos que a velha Juliette tinha estava causando certo transtorno na hora de apresentar as passagens. Eles combinaram de que passariam todos os jovens e que depois o tal do Frank apresentaria as passagens e a documentação de todos eles. Cada jovem que passava fazia um sinal com o dedo polegar pra trás, indicando que eles não estavam com as passagens. Thomas aproveitou e se prestou a acompanhar a velha Juliette até onde os seus familiares estavam. Aproveitando a confusão, Thomas enfiou-se no meio dos jovens e repetiu o mesmo sinal que todos eles estavam fazendo. Depois de passar rapidamente pelo túnel de embarque, ele entrou rapidamente no ônibus e sentou num dos últimos bancos. Depois, teve uma idéia melhor. Fingiu estar indisposto e se trancou no banheiro do ônibus. Só saiu de lá depois que o ônibus já estava há uns duzentos metros de distância da rodoviária, meio sem graça, devido às risadas maldosas de alguns passageiros. Como não havia mais o perigo de ser descoberto, sentou-se novamente em um dos últimos bancos e puxou um daqueles dois ou três livros que estavam na sua mochila.
 
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 os 30 melhores de 2005
@ Hanrrikson de Andrade
NO RIO DE JANEIRO
Janeiro 03, 2006
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