As últimas flores em um hospital |
|
Uma bonita moça na recepção,
Está sorrindo, falsamente, para mim;
Enquanto lá dentro, meu coração,
Pode a qualquer momento ter um fim,
E a todos, só restará o lamento...
Só poderão derramar lágrimas de arrependimento,
Antes, ao menos, esterilizei meu pensamento...
E não vesti os velhos aventais sujos de sangue,
Não venha me trazer flores nesse maldito hospital,
A obsessão do sangue! A OBSESSÃO DO SANGUE!
Deixou de ter sua importância carnal, material...
Meu espírito agora vai flutuar na amplidão niilista,
Enquanto a minha carne ainda vai estar no médico legista,
Pelos corredores, ninguém ousar abrir um sorriso,
E pensar que num dia tive a sensação de estar no paraíso,
O paraíso do inferno...! A dialética da química...!
Tudo ao redor de uma extrema vontade cínica,
Ao redor da monotonia clínica.
A enfermeira tem a aparência de um demônio,
O médico, rude e estúpido, tem os modos de um vassalo,
Do meu peito, ouve-se um estalo,
Ele diz que minha vida está acabando,
Que minha existência terá fim ali, naquela cama...
Em cima daquele branco lençol, naquele lúgubre leito...
Tudo o que havia feito, de nada valeu,
Todos os meus preceitos morriam, comigo,
Aquilo parecia um eterno castigo...
Que viera para salvar-me de mim mesmo,
Que viera para revelar um outro mundo, uma outra verdade...
Cortaram-me os cabelos,
Furaram-me a veia,
Pra que? Por que?
Não escutaram meus apelos!
Daqui mal se vê o sol que clareia...
Nada faço aqui há não ser vegetar...
E esperar...
E você ainda vem me trazer flores?
Leve-as no meu velório,
E que eu tenha um fim simplório,
Nada de muita cerimônia. |
| |
publicado por AFORISMO.NET @ 28.1.05
|
|
| |
A dialética de uma imagem em movimento |
|
@ |
Hanrrikson de Andrade
NO RIO DE JANEIRO |
|
|
|
O que é aquilo?
A proteção de tela da vida?
A máscara da atriz envergonhada e despida?
Ou ainda seria, mesmo depois de muito tempo,
A suja dialética sócio-cultural
O que é isso?
Verdade? Isso é DE VERDADE?
Move-se como quem não chega ao chão
Geme como quem sente a estigma da solidão
Sente-se livre, mas presa à emoção...
Parece querer dizer algo...
(três barulhinhos no fundo do palco...)
Move-se...
Desce,
Sobe,
Flutua,
Paira,
Lentamente,
Irradia,
Sua vagarosa,
Monotonia,
Monotonia,
Monotonia,
Tédio,
Dois centímetros à direita,
Ela vai,
Sem contestar,
A imagem está se movendo,
Movendo... Movendo...
E o nada está mais próximo
Eu estou morrendo... Morrendo...
Com um óxido ionizado
No meio da testa...
Ela pisca...
Pisca...
PÁRA DE PISCAR!
Sua luz me irrita...
A ponto de quase me cegar...
Cego...
Eu estou ficando cego...!
Pra onde foi a imagem? |
| |
publicado por AFORISMO.NET @ 28.1.05
|
|
| |
Eu não queria ter nascido |
|
Um fósforo velho,
A ignorância do povo,
A sede da burrice,
A burrice da fome,
O assistencialismo,
O desvio de verba,
A impunidade,
O tendão de Aquiles,
O plano de saúde,
O posto de saúde,
A máfia dos vampiros,
A fila de espera,
A morte anunciada,
A vida cretina,
A falta de razões,
A falta de cultura,
A falta de tudo,
O câncer,
A alienação,
A Malhação,
O Big Brother,
A merda enlatada,
A pobreza de espírito,
A estupidez,
O estúpido,
O povo,
O Brasil,
O mundo,
A tarde sem graça,
O sensacionalismo,
O estupro na zona leste,
O assalto na estrada,
A loucura,
A hipersensibilidade,
O prazer momentâneo,
O cigarro de palha,
O cachimbo,
O ventinho frio atrás da orelha,
A gélida brisa da morte,
O ardor nos olhos,
Os cálidos olhares,
O jardim de mentira,
A floresta falaz,
O pequeno duende,
A linda fada azul,
O sonho salgado,
A aventura oceânica,
O cavalo que defeca,
O muro de Berlim,
O tijolo de seda,
A cana de açúcar,
O mel da abelha,
O inverno da carne,
A guarnição de sangue,
Com batatas fritas,
O extrato de tomate,
O ketchup,
A sonda em Marte,
A estrela de David,
A faixa de Gaza,
A faixa amarela,
A entrada da favela,
O batuque do morro,
A Igreja Universal,
A nota fiscal,
O paraíso fiscal,
As Ilhas Cayman,
O extrato bancário,
O mar verdejante,
O plano real,
A alta do dólar,
A bolsa de valores,
A inflação,
O superávit primário,
Tudo que se compra,
Tudo que se vende,
Mercador de almas,
Espasmos incuráveis,
Alimentos transgênicos,
O tráfico de influências,
O terrorismo da terra,
O MST,
A DST,
A camisinha,
A Igreja Católica,
O martírio na África,
A patente da vida,
A enganação,
A descrença,
A democracia,
A ditadura,
A perfeição inventada,
A estupidez do homem,
A mãe de todas as bombas,
O meu Deus é melhor que o seu,
A competição étnica,
O pretexto para a guerra,
A economia,
O nazista que manda no mundo,
O homossexual enrustido,
O babaca,
O imbecil,
O idiota,
A sobreposição cultural,
Tudo que dá lucro,
Tudo que realmente importa.
Vivemos no inferno,
E não nos damos conta disso. |
| |
publicado por AFORISMO.NET @ 26.1.05
|
|
| |
Convergência |
|
@ |
Hanrrikson de Andrade
NO RIO DE JANEIRO |
|
|
|
Tambores, barulhos...
Baterias, latas, pedregulhos...
Urânio, chumbo, alumínio...
Face, faceta, fácil, fascínio...
Luz, cruz, rosa, jardim...
O início, o meio, o fim...
A pubescência...
A eloqüência...
A convergência,
O caminho.
Tristeza, melancolia, o final...
Os ruídos, as estranhezas, o mal...
Tudo vai terminando... Acabando...
Parando... Parando... Parando...
As pedras começam a gemer...
Dor... Dor... Dor... Dor...
Olhos bonitos começam então a nascer,
A simpatia, o calor, o alvorecer...
A água, o gelo, o fogo, o vento...
As manias, o sentimento...
O tempo. |
| |
publicado por AFORISMO.NET @ 26.1.05
|
|
| |
|
|
|
...textos
memoráveis |
 |
|
|
|
|
|
...vida
boêmia |
 |
|
|
|
|
|
...análises
pontuais |
 |
|
|
|
|
|
|
|
...jogos em tempo real |
 |
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|